Uma crítica à falseabilidade

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Karl Popper foi um dos filósofos mais influentes do século XX.

Por Mario Bunge
Publicado no Cien Ideas

Todos, com exceção dos pós-modernos, apreciamos a verdade, ao ponto de depreciar ou mesmo punir os mentirosos. Mas ao mesmo tempo todos sabemos que, fora da matemática, a exatidão é tão escorregadia como a justiça, a honestidade e o desinteresse. Todos estes são ideais dos quais podemos e devemos aproximar-nos, embora temos sempre a ilusão de alcança-los.

De fato, talvez possamos acumular elementos de prova em favor de uma teoria física, biológica ou sociológica, mas jamais poderemos prová-la conclusivamente e definitivamente, do modo em que se demonstram os teoremas matemáticos. O máximo que podemos esperar nas ciências factuais são verdades parciais ou aproximadas, tais como “a Terra é esférica” e “o preço de uma mercadoria é inversamente proporcional a sua demanda”.

Esta é a razão para a diferença: as verdades matemáticas dependem apenas das hipóteses e definições que quisermos decretar, enquanto que a verdade dos enunciados dos fatos depende do mundo, que não é da nossa conta.

Por esta razão, a descoberta de um grande número de exemplos favoráveis a uma hipótese não exclui a possibilidade de que investigações posteriores apresentem contraexemplos (exceções). Em outras palavras, um alto grau de confirmação não garante a verdade de uma proposição: mostra apenas que ela é plausível.

Esta dificuldade para alcançar verdades exatas e definitivas acerca do mundo real sugeriu ao célebre filósofo Karl Popper (1902-1994) que o máximo que podemos pedir de uma proposição referente aos fatos é que resista as tentativas de falseá-la.

Mais precisamente, Popper propôs a falseabilidade como critério de cientificidade: uma proposição seria científica se, e somente se, pudermos imaginar as circunstâncias em que ela seria falsa. Por exemplo, a hipótese de que o nosso universo é um dos muitos universos paralelos entre si não é científica, porque não há nenhuma maneira de entrar em contato com os alegados universos alternativos.

Segundo Popper, não haveria um paraíso de enunciados factuais: apenas existiriam o inferno das falsidades e o purgatório das conjecturas para falsear. Esta doutrina é chamada de “falsificacionismo”. Também poderia ser chamada de “masoquismo gnoseológico”, porque é certo que os cientistas procuram verdades, ainda que sejam aproximadas, e triunfam na medida em que as encontram.

Por exemplo, de acordo com Popper, a hipótese de que a Terra é plana teria sido científica antes da viagem de Magalhães, porque era falseável, uma vez que se podia imaginar uma viagem ao redor do mundo. Na minha opinião não era, e isto por uma razão diferente: porque era incompatível com a maior parte do saber científico da época.

De fato, contradizia a suposição da antiga astronomia grega, de que a Terra é um corpo tão redondo, como os chamados corpos celestes. A hipótese da Terra plana era popular e estava escrita na Bíblia, mas os astrônomos sabiam que era falsa muito antes de Magalhães.

Dezessete séculos antes da expedição de Magalhães dar a volta ao mundo, o astrônomo grego Eratóstenes havia calculado o diâmetro da Terra. Ou seja, a tese da Terra achatada não era científica porque era incompatível com o corpo de conhecimento científico da época.

Creio que a falseabilidade não seja necessária e nem suficiente para a cientificidade. Por outro lado, há o que eu chamo de coerência externa, ou compatibilidade com a maior parte do conhecimento científico atual. A falseabilidade não é necessária para a cientificidade, porque há hipóteses científicas, tais como a existência de certas coisas ou processos (por exemplo, planetas extrassolares, ondas gravitacionais, células que emergem para a automontagem de compostos químicos, et cetera), que são apenas confirmáveis, porém são compatíveis com a maior parte do conhecimento científico.

Além disso, as hipóteses de alto nível, tais como a mecânica quântica e a biologia molecular, não são testáveis por si mesmas. Para submetê-las a prova deve-se enriquecê-las com premissas que representam características particulares do objeto estudado. Ademais, é preciso “operacionalizá-las”, ou seja, traduzir alguns termos teóricos a termos empíricos (por exemplo, transformar temperaturas em escalas de colunas termométricas).

A falseabilidade não é suficiente: há hipóteses não-científicas, tais como a determinação da personalidade pelos astros ou pelo treinamento do esfíncteres, que foram refutadas há muito tempo. Mas nenhuma delas é compatível com a maior parte do conhecimento científico.

Ademais, a falseação não é mais conclusiva do que a confirmação. Na verdade, todos sabemos que há erros de observação ou de cálculo. Infelizmente, nem Popper e nem os positivistas a quem critico tiveram em conta os distintos tipos de erros que afetam os dados empíricos. Por isso, Popper acreditou que os resultados negativos são definitivos, e os positivistas afirmaram que os positivos é que são.

Estritamente falando, o critério popperiano de falseabilidade aplica-se exclusivamente as chamadas hipóteses nulas, de forma que “as variáveis A e B não estão associadas entre si”. Na verdade, a primeira coisa que um cientista faz quando é confrontado com uma delas é tentar falseá-la. Se isso acontecer, ou seja, se encontrar que A e B estão correlacionadas entre si, será necessário formular uma hipótese afirmativa e precisa, tal como “B é uma função exponencial de A”. Mas nem Popper e seus discípulos se ocuparam de hipóteses nulas e nem, em geral, com a estatística.

Contudo, uma hipótese que seja infalseável em princípio é um chamado de atenção sempre e quando não se apresenta junto com outras hipóteses ou quando seus companheiros servem apenas para protegê-la. Esta última aconteceu com a hipótese freudiana da repressão, cuja a única função é proteger a fantasia edipiana. (“O amor que você diz sentir pelo seu pai reforça a minha suspeita de que você o odeia: seu superego reprimiu tão fortemente seu ódio, que você não percebe.”) Um caso semelhante é a hipótese de que todos tentam maximizar os lucros esperados. Se alguém fornecer um contra-exemplo, tal como o fumante que ao inalar com prazer se expõe ao câncer ou de quem faz favores sem esperar recompensa, responde-se: “Ah, mas o fumante e o altruísta sentem prazer, ainda que o primeiro arrisque sua saúde, e o segundo seu patrimônio!”.

Não há, portanto, uma maneira de testar o postulado central das teorias da ação racional. Além disso, este postulado é incompatível com a economia experimental, o que mostra que tendemos a evitar riscos e a contentar-nos com lucros razoáveis.

Em conclusão, a falseabilidade é importante, porque controla a imaginação. Mas não é mais do que a coerência com a maior parte do conhecimento. Em todo caso, os investigadores buscam confirmar suas teorias favoritas, não a falseá-las. O Prêmio Nobel nunca foi concedido por falsear hipóteses. Analogamente, o lavrador não se limita a capinar, mas a colocar seu maior esforço em coletar algo comestível e comercializável.

Em resumo, a falseabilidade é desejável, mas não é necessária e nem suficiente. Muito mais importante são a confirmabilidade e a coerência com a maior parte do saber.

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21 Comentários em "Uma crítica à falseabilidade"

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João Matheus
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Alguns comentários: “Esta é a razão para a diferença: as verdades matemáticas dependem apenas das hipóteses e definições que quisermos decretar, enquanto que a verdade dos enunciados dos fatos depende do mundo, que não é da nossa conta.” – A matemática depende da coerência interna do argumento e não de hipóteses. (ver figura) “Mais precisamente, Popper propôs a falseabilidade como critério de cientificidade: uma proposição seria científica se, e somente se, pudermos imaginar as circunstâncias em que ela seria falsa.” – Uma proposição é científica que puder gerar uma hipótese que possa ser confrontada com observação. Não depende de um… Read more »
Paulo Gomes
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Se for possível gostaria de saber em que parte da bíblia está escrito que o planeta Terra é plano. Desde já agradeço a consideração.

Icaro Ramos
Visitante

Douglas, um rapaz me perguntou sobre o artigo original do Bunge. Você tem algum link ou referência que possamos acessar?

Igor
Visitante

Vocês possuem o link para esse artigo ? Procurei o original mas não achei. É para um trabalho. Abraço

Luiz Carlos
Visitante
“De fato, contradizia a suposição da antiga astronomia grega, de que a Terra é um corpo tão redondo, como os chamados corpos celestes. A hipótese da Terra plana era popular e estava escrita na Bíblia, mas os astrônomos sabiam que era falsa muito antes de Magalhães.” Discordo do trecho acima, pois em parte alguma da Bíblia há um versículo que induz alguém a acreditar que a Terra era plana. Ao contrário, em Isaías 40:22 diz: “Ele é o que está assentado sobre o CÍRCULO DA TERRA”. E em Jó 26:7 “… e suspende a terra sobre O NADA”. Ou seja,… Read more »
John
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Ué, a Terra pode ser circular e plana, qual a incoerência? Aliás, circular já me remete a plana, já que do contrário teria sido dito “esfera” ao invés de “círculo”. Todo círculo é plano. E não dá pra tirar pequenas frases do contexto da Bíblia, fazendo isso, você consegue dizer qualquer coisa.

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