“Quem Somos Nós?” – Física Quântica e Espiritualidade – Só Que Não!

“Quem Somos Nós?” – Física Quântica e Espiritualidade – Só Que Não!

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Crédito da Imagem: What The Bleep Do We Know.

Eu não queria escrever esse artigo, mas infelizmente o documentário Quem Somos Nós? (em inglês What the Bleep do we Know!?) voltou a circular na internet, em especial, nos grupos de física no Facebook.

Quem Somos Nós é um documentário de pseudociência que distorce os conceitos da mecânica quântica. Uma pessoa que não tem noção básica de mecânica quântica acaba acreditando nesse filme por falta de informação. Para um leigo, é praticamente impossível distinguir em qual parte o documentário começa a viajar no mundo dos unicórnios.

O problema desse documentário é misturar ciência com espiritualidade, consciência (não em referência aos estudos em filosofia da mente e neurociência, mas com base em pseudociências) e outras crenças esotéricas New Age, repassando a informação como algo comprovado pela ciência, em especial, pela mecânica quântica. Em primeiro lugar a mecânica quântica não fala sobre espiritualidade, consciência ou meditação, e a ciência ainda não conseguiu explicar a consciência (os últimos estudos foram inconclusivos). [1]

QUEM SÃO OS “ESPECIALISTAS” DO DOCUMENTÁRIO?

O documentário é apresentado por um ex-padre que pregava o evangelho do irmão gêmeo de Jesus, um médico que quer curar os gays e acha que os liberais são retardados mentais, outro que exerce uma terapia não reconhecida pela ciência, um físico praticante de levitação, um cara morto há 35.000 anos baixando em uma dona loira e, em má companhia nesta turma, um físico sério enganado pelos discípulos de uma seita maluca. [2]

“QUEM SOMOS NÓS” EM POUCAS PALAVRAS

01 – A física quântica nos diz que a realidade não é fixa – partículas subatômicas só passam a existir quando eles são observadas.

02 – Nossa mente tem um enorme potencial, mas só usamos uma pequena parte dela para o pensamento consciente, e perdemos muito do que está acontecendo ao nosso redor.

03 – Se a sua mente é o “observador”, você deve ser capaz de escolher qual das muitas realidades possíveis em torno de você vem à existência – você pode criar sua própria realidade, e provavelmente virá sem medicação anti-ansiedade para arrancar.

Só tem um “pequeno” problema com tudo isso citado acima! Está tudo errado!

O EFEITO DO OBSERVADOR

“A mecânica quântica calcula apenas possibilidades. Quem ou que escolhe entre essas possibilidades para trazer o evento real da experiência? A consciência deve estar envolvida. O observador não pode ser ignorado.” Amit Goswami (PhD) em Quem Somos Nós.

Não exatamente, Amit. O efeito do observador na mecânica quântica não é sobre pessoas ou realidade. Ela vem do Princípio da Incerteza de Heisenberg, e é sobre as limitações ao tentar medir a posição e o momento das partículas subatômicas. Um material emocionante, mas nada a ver com nossas vidas diárias.

Heisenberg basicamente disse que você não pode obter uma solução realmente precisa, tanto a posição e o momento de uma partícula subatômica – digamos, um elétron – ao mesmo tempo. Pode ser preciso em um ou o outro, mas não em ambos. Na verdade, é a máquina que é o observador, e não o ser humano que está anotando resultados. [3]

FORA DA EXISTÊNCIA DE PARTÍCULAS

“A realidade física é absolutamente uma rocha sólida, mas ele só passa a existir quando ele bate contra outro pedaço de realidade física – como nós, ou uma pedra.” Dr. Jeffrey Satinover (psiquiatra, doutorando em física), em Quem Somos Nós.

Os pedaços de matéria que compõem as partículas subatômicas (prótons, nêutrons e elétrons) não existem em nenhuma maneira prática, mensurável, a menos que eles estejam interagindo uns com os outros. Uma vez que eles não colidem uns com os outros, eles formam seus pequenos eus regulares.

Mas isto só se aplica às partículas subatômicas – uma rocha não precisa que você esbarre nela pra existir. Ela está lá. As partículas subatômicas que compõem os átomos que compõem a rocha também estão lá.

E isso certamente não depende de um observador para fazer isso acontecer. Enquanto uma partícula subatômica está interagindo com outra partícula subatômica, elas existem independentemente de onde você está ou o que você está fazendo.

NOTA: Quando eles usam a palavra “observar”, na verdade significa “interagir com o”, e não olhar ou pensar.

“As partículas aparecem e desaparecem – para onde vão quando não estão aqui Uma resposta possível: eles vão para um universo alternativo onde as pessoas estão fazendo a mesma pergunta: ‘Onde eles foram?'” Fred Alan Wolf, em Quem Somos Nós.

Elas não vão a lugar algum, Fred. Partículas são flutuações – as regras da física dizem que é perfeitamente bem para que eles existam em algum momento e/ou lugar e ser inexistente em outro momento e/ou lugar. [4]

ELES ESTÃO ERRADOS SOBRE AS NOSSAS MENTES PERCEBEREM A REALIDADE

“Sua mente não pode dizer a diferença entre o que vê e o que se lembra de” Dr. Joseph Dispenza (quiroprático) em Quem Somos Nós.

Dr. Dispenza afirma (corretamente) no filme que os exames PET E MRI mostram que a mesma parte do cérebro se ativa sempre que você olha algo ou apenas se lembra da coisa. Mas é um grande passo dizer que o cérebro não sabe a diferença entre a visão e a memória.

Nosso cérebro não nasceu ontem. Dado algumas pistas contextuais, como por exemplo, quando as pálpebras estão abertas ou fechadas, ele pode perceber alguma coisa vendo ou só se lembrando. E tem o fator escalar – o cérebro se mostra ativo nos scans muito mais forte quando você está vendo alguma coisa do que quando você está lembrando-se de algo.

“Nosso cérebro recebe 400 bilhões de bits por segundo de informação, mas só somos conscientes de 2000 bits por segundo. A realidade está acontecendo a todo tempo no nosso cérebro  – estamos recebendo a informação mas ela não está sendo integrada.” Andrew B Newberg (médico radiologista) em Quem Somos Nós.

Os valores são um pouco flexíveis, mas a ideia de que só somos “conscientes” de uma fração da nossa atividade cerebral é correta e um imenso alivio.

O que pode ser pior do que estar ciente de cada pequeno detalhe que nosso cérebro recebe – desde os níveis de fosfato até a taxa cardíaca e no crescimento capilar. É como ser o CEO de uma gigantesca empresa e escutar o que cada funcionário está fazendo a cada minuto todo o dia. Reuniões já são entediantes o suficiente – Me dê uma mente consciente com um dispositivo de filtro decente qualquer dia.

O único problema com a afirmação de Andrew Newberg é que ela sugere que nosso subconsciente está fazendo coisas realmente interessantes e estamos de alguma forma perdendo isso. Se pudéssemos aproveitar o outro zilhão de gigabits poderíamos ser os mestres do nosso destino. Se isso é verdade ninguém pode medir isso ou ver os efeitos.

“Só podemos ver o que é possível – os índios americanos nas ilhas caribenhas não puderam ver os navios de Colombo (ao horizonte) pois eles estavam além do conhecimento deles.” Dr. Candace Pert (ex-cientista, atual guru da nova era) em Quem Somos Nós.

É difícil dizer onde Candace Pert foi desonesta sobre se os índios americanos viram ou não quando Colombo e o seu pessoal atingiram o horizonte. Colombo certamente não falava a língua local, e os índios não deixaram registros escritos. Só o pajé sabia, e nós estamos cerca de 500 anos atrasados para perguntar.

Mas ela estava certa sobre nós não vermos coisas na frente de nossos olhos se não estamos olhando para aquilo. Um experimento clássico sobre processamento visual envolve pedir para pessoas assistirem um vídeo com 6 pessoas passando uma bola de basquete, e pressionar um botão cada vez que um time em particular passa a bola. Invariavelmente só metade das pessoas notou uma mulher vestida de gorila caminhando no meio da tela durante o jogo. [5]

ELES ESTÃO ERRADOS SOBRE AS NOSSAS AFETAREM A REALIDADE

O filme nos dá dois exemplos de experimentos que mostram o efeito da mente afetando a realidade. Nenhum deles prova isso convicentemente.

01. EFEITO DA MEDITAÇÃO NO CRIME VIOLENTO EM WASHINGTON, DC

O PhD John Hagelin, descreve um estudo que ele fez em Washington em 1992. 4000 voluntários meditavam regularmente pra atingir uma redução de 25% no crime violento pelo final do verão. Ele afirma que a redução foi atingida.

Mas o uso do termo “atingido” para Hagelin é um pouco forte. Ele anunciou em 1994 (um ano após o estudo) que a redução no crime violento foi de 18%. Você pode pensar que deveria ter 18% menos crimes do que o ano anterior, mas a redução foi relativo para o crescimento premeditado por meio de um elaborado trabalho estatístico. Indicadores regulares do crime violento mostram uma versão diferente – o numero de assassinatos na verdade aumentou.

A meditação pode não ter ajudado as vitimas do crime violento, mas ajudaram Hagelin a ganhar em 1994 o premio Ig Nobel da Paz.

02. O PODER DOS PENSAMENTOS NA ÁGUA

“Se pensamentos podem fazer isso com a água, imagina o que nossos pensamentos podem fazer conosco.” Observou um fã do Dr. Masaru Emoto no filme.

Dr. Emoto tira fotos de cristais formados na água congelada. Segundo seus livros, a água exposta a palavras de carinho demonstram padrões brilhantes e bonitos, enquanto a água exposta a pensamentos negativos forma padrões incompletos. Estas fotos podem ser muito bem apenas uma arte – mas é óbvio que não tem nada de ciência.

Se você gostaria de estudar o impacto dos sentimentos que são falados, desenhados, escritos na formação de cristais na água congelada, você tem que fazer um estudo ligeiramente mais rigoroso. Pra começar você teria que tirar um monte de amostras de diferentes partes de cada tipo de gelo. E fazer o estudo sem saber o que foi “dito” pra cada tipo de água, para as opiniões pessoais não influenciarem os resultados.

O ilusionista e cético James Randi, famoso por desmascarar artistas como Uri Geller, tem oferecido seu prêmio clássico de $1 milhão de dólares em dinheiro. Para o Dr. Emoto se ele conseguir ter os mesmos resultados fazendo o estudo da água desse jeito. Até agora, Dr. Emoto não aceitou o desafio. Em compensação ele acabou de lançar o seu terceiro livro de fotos de cristais bonitinhos. [6]

NOTA: leia uma crítica mais elaborada sobre o assunto aqui.

“QUEM SOMOS NÓS?” IMPORTA? É APENAS UM FILME!

Quando você percebe que muitas pessoas estão conversando sobre algo, é hora de se informar. Mas quando você se depara com tanta informação que foi distorcida pra se adequar a moldura da sua vida, as coisas se tornam um pouco confusas é nessa hora que você deve checar os fatos! [7] [8] [9]


GUIA CÉTICO PARA ASSISTIR “QUEM SOMOS NÓS?”

01. Quem São os “Especialistas?”
02. Análise do Documentário.
03. Análise Final e Conclusão.


FONTES

[1] Refutando o “Professor” de “Física Quântica” Laércio Fonseca.
[2]
Guia Cético Para Assistir “Quem Somos Nós?”.
[3] Princípio da Incerteza de Heisenberg.
[4] Fora da Existência de Partículas.
[5] Eles Estão Errados Sobre as Nossas Mentes Perceberem a Realidade.
[6] Eles Estão Errados Sobre as Nossas Mentes Afetarem a Realidade.
[7] Teaching Physics Mysteries Versus Pseudoscience.
[8] The Minds Boggle.
[9] What The Bleep do we Know?!


COLABORAÇÃO

01  Douglas Rodrigues (Pesquisa)
02 
Lucas Muller (Tradução)

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161 Comentários em "“Quem Somos Nós?” – Física Quântica e Espiritualidade – Só Que Não!"


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Wagner
2 meses 1 dia atrás

O texto do Douglas é bom, mas o texto do Abílio Neto foi melhor!!!

Me perdoe, aprendi que para tal grandeza ser medida, haveria a necessidade de se utilizar o instrumento de medição apropriado, assim entendo que para medirmos aquilo que a nós possa ser novo e ou, ainda a ser descoberto, devamos ter em mãos seus devidos instrumentos novos e ou ainda inexistentes.

A física não comprova e não mede aquilo que não é da natureza física ainda conhecida, apenas se esta for a inverdade por ela mesma descoberta.

Simples, não?

Complexo, sim?

Amai-vos uns aos outros… Instrui-vos!!!

Forte e Fraterno Abraço a Todos!

Wagner

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Alessandra
3 meses 1 dia atrás

Nossa, mas que gente chata!
Um monte de gente que não entende nada de física e ciência comentando abaixo.
E xingando o autor do texto, como se ele tivesse a obrigação de concordar com o filme e como se refuta-lo fosse praticamente uma blasfêmia! Ainda comparam o cara com um “alienado religioso” e eu só vi gente alienada comentando aqui com raivinha do autor por ele ter discordado do filme. Tudo bem, você não gostou do texto? Argumente, mas não xingue! Gente mal educada e ainda falam de espiritualidade…eca

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NEO
2 meses 1 dia atrás

Concordo plenamente como as pessoas que querem discordar das opiniões do autor do texto, não tem condições de argumentar, ficam apenas atacando e ofendendo, sem apontar boa argumentação, coerente.

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Victor
3 meses 25 dias atrás

Estes novos “homens das ciências céticas” perderam a total flexibilidade filosófica, vejo um futuro seco e sombrio que nos aguarda, no demais, eles já encontram o que buscam, e por ai termina.

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Yang Yin
3 meses 27 dias atrás

Estimado Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira, tenha em mente que a “Crítica rasteja e a crianção voa”. Mas aprecio e admiro seu senso cético e questionador sobre essas questões, embora eu não concorde muito com esse seu lance de tentar “refutar tudo”. Prefiro a harmonia e o equilíbrio…pois no fim das contas o que impera é o “Tanto faz e daí” Valeu mesmo a pena criar e alimentar intermináveis e desgastantes atritos? Mas considerando que você dica sua a vida a isso, dou-lhe uma boa dica para a próxima postagem. Sigmund Freud seria uma das maiores farsas?

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umcaraai
3 meses 18 dias atrás

Freud em si era mais um farsante do que uma farsa, já que o mesmo era um cientista de verdade, porém publicava estudos falsos.

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Jorge santofer
4 meses 6 dias atrás

A nossa experiência do mundo é unicamente constituída pelas ideias que dele fazemos. O mundo que conhecemos não é, pois, imutável; está perpetuamente em renovação. Tudo, no domínio material como no mental, está submetido à lei do movimento. A realidade do mundo é a sua transformação incessante. A estabilidade e a solidez que nos apresentam os nossos sentidos são somente aparências. Tal é o veredicto da razão. A forma tomada pela experiência humana está pois, vincada de ilusões. A ciência descobriu que os átomos eram ondas de energia. Além das descobertas efetuadas no domínio da radioatividade, uma revolução tinha sido já alcançada pela teoria da Relatividade e desenvolvida pela mecânica dos quanta. A substância do mundo não é estável, é uma série de acontecimentos dinâmicos. O Universo é um “vir a ser”, não uma coisa e muito menos uma coisa material. Não encontramos a energia pura em si, mas as suas supostas transformações – som, calor, luz,etc.. Isto porque ela é uma criação conceitual unicamente para fins práticos. Os cientistas nunca a isolaram. Como teoria matemática para fins práticos, e como símbolo de cálculo para fins tecnológicos, é extremamente útil, mas conserva-se no domínio da hipótese. Supõe-se que ela está em obra por trás do movimento universal, mas nunca foi encontrada. A ciência relativista do século
XX começou a admitir, um pouco contrariada, que ela não tocava senão um mundo de abstrações. Descobriu que abordava apenas certos caracteres particulares de uma coisa, nada mais, e talvez nem a própria coisa. Ela está se a mover numa direção que a constrangerá, se não se realizou já no princípio deste sec. XXI, a constatar, conforme seus próprios factos e seu próprio raciocínio, que a substancia do mundo é a mesma de que são feitas as nossas ideias. `Vê-se então que a energia não é a raiz original do Universo, que a realidade última, sendo
de carácter mental, não pode limitar-se a ela, que constitui unicamente um dos aspectos principais desta realidade, não uma força independente. O próprio espírito é a fonte de energia à qual a ciência desejaria reduzir o Universo. Ou seja, a energia é um atributo do espírito.
Esse espírito é o Espírito Universal existindo por detrás de todos os nossos pequenos espíritos. O eu que conhece e o não-eu que é conhecido apresentam-se sempre como contrários, o que não os impede de estar indissoluvelmente ligados em cada acto do conhecimento. Podem parecer separados no espaço, mas não o são na consciência. Assim, conforme a linguagem técnica de Einstein, o observador entra em toda a observação. As duas coisas, o existente
e o conhecido realizam uma união quase mística. O homem não pode separar o que a Natureza uniu! A existência pressupõe uma certa vida e a vida, por sua vez, pressupõe uma certa inteligência que indica, naturalmente, a presença de um espírito. … . Fico por aqui, mas seria interessante que conhecesse os vários planos de existência ou, se quiser, as variadas dimensões ainda por revelar, a não ser àqueles que atingiram já uma escala de evolução
altíssima.