A ideologia libertária é a inimiga natural da ciência

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The opponents of gun control are impervious to evidence that carrying a firearm endangers both them and those around them.
Os adversários do controle de armas são impermeáveis à evidência de que carregar uma arma de fogo ameaça tanto a eles quanto àqueles que os rodeiam.

Publicado por David Robert Grimes no The Guardian
Traduzido por Dhanylo Silva

A observação de que a ciência e a política se fazem companheiras incômodas, e muitas vezes traiçoeiras, é dificilmente reveladora. Na ciência, todas as hipóteses devem resistir à prova de fogo dos experimentos; sua metodologia é despreocupada com preconceitos triviais ou convicções pessoais, é objetiva e se autocorrige. A política, ao contrário, está profundamente enredada com a ideologia – não é obrigada a respeitar a realidade como a ciência é, e não pensa em substituir evidências convincentes pela retórica emotiva. E, no entanto, quando a ciência e a política se chocam, é com demasiada frequência que a ciência perde.

Isso é claramente visto nos confrontos entre a evidência científica e o liberalismo econômico, que é definido pela crença de que as economias devem ser fundadas ao longo de linhas individualistas, com uma regulamentação governamental mínima. Um forte apoio ao livre mercado e aos direitos de propriedade privada são características identificadoras. Este último axioma de fé afirma que aqueles que obtiveram propriedade são livres para explorá-la como desejarem, sem obrigação para com os outros. Este direito é considerado absoluto, e qualquer coisa que possa interferir com a propriedade sem consentimento – muitas vezes mesmo tributação – é considerada uma infração.

Com alguma variação, esses princípios formam a base da filosofia política de muitas organizações, grupos de reflexão e até partidos políticos, como o Partido Libertário e o Tea Party nos Estados Unidos e o Partido Liberal, que governa a Austrália. No entanto, muitas vezes, essas filosofias ferozmente individualistas e desfavoráveis a regulação, entram em conflito com a ciência, com consequências extremamente prejudiciais.

As mudanças climáticas ilustram bem isso, porque, apesar das evidências esmagadoras de influência antropogênica, há uma tendência para aqueles com pronunciadas opiniões favoráveis ao livre mercado rejeitem a realidade do aquecimento global. A razão subjacente a isso é transparente – se alguém aceitar a mudança climática antropocêntrica, então o apoio à ação mitigadora deve seguir. Mas o demônio da regulação é um passo largo demais para muitos libertários. Dado que as alterações climáticas afetam a todos, quer este consente ou não, então o uso não regulamentado de recursos naturais viola os direitos de propriedade dos outros e é ideologicamente equivalente a invasão, de modo que o tênue castelo de cartas do direito de propriedade desmorona.

Diante desse dilema ideológico, os defensores do livre mercado muitas vezes resolvem a dissonância cognitiva simplesmente rejeitando a realidade da mudança climática, ao invés de reconhecer que seu axioma é fundamentalmente falho.

A rejeição da ciência impede seriamente a ação com relação ao clima e a negação é endêmica nos conjuntos liberais econômicos americanos, tendo Tea Party como os piores criminosos. No ano passado, quando nevou no Alasca em maio, Sarah Palin exclamou: “Aquecimento global é meu glúteo máximo!“, Apesar do fato de que as paradoxais ondas de frio são preditas por modelos de mudança climática e não contradizem a constatação de que a temperatura global média continua a subir. O político libertário Ron Paul descarta a mudança climática reivindicando-a como uma farsa.

É claro que a afirmação de que a mudança climática é um mito não é um fenômeno exclusivamente americano: Tony Abbot denuncia a mudança climática como uma “merda absoluta“. No início deste ano, ele anulou o imposto de carbono já limitado introduzido para mitigar os danos, apesar de evidência clara de que as temperaturas médias australianas continuam a disparar para o céu.

A postura antirregulamentadora individualista dos defensores do livre mercado também tem consequências graves para os cuidados de saúde. Como o economista Paul Krugman explica em uma coluna recente, discípulos de Milton Friedman permanecem profundamente opostos ao próprio conceito da US Federal Drug Administration, vendo-o como intrusão desnecessária pelo governo. Na opinião de Friedman, sem a FDA as corporações evitariam de ferir as pessoas por medo de ações judiciais e, portanto, autorregular-se-iam.

A verdade é que sem avaliação externa, é difícil determinar a eficácia ou efeitos colaterais de qualquer droga. O livro de Ben Goldacre, Bad Pharma, ilustra com abundantes detalhes que, quando as empresas farmacêuticas são obrigadas a fazer ensaios clínicos, são frequentemente relatadas em formas estatisticamente desviantes, desonestamente escolhidas a dedo de forma a exagerar a eficácia de seus tratamentos. Isto não surpreende, dado que a motivação de uma empresa privada é maximizar o lucro, com a integridade científica chegando um segundo plano.

A expectativa de que as empresas privadas podem ser confiáveis ​​para inovar os cuidados de saúde também é equivocada. Enquanto a resistência aos antibióticos tem aumentado constantemente, por exemplo, praticamente nenhum novo antibiótico tem sido desenvolvido em décadas. Uma das principais razões para isso é que, apesar do enorme impacto dos antibióticos sobre as taxas de mortalidade no século passado, eles continuam sendo produtos de baixo lucro, normalmente usados por um paciente por pouco tempo. É muito mais lucrativo desenvolver medicação de longo prazo para condições crônicas e, sem surpresas, isso é o que as empresas farmacêuticas preferem fazer.

Este é o resultado lógico de confiar a pesquisa em saúde a empresas privadas. Isso também significa que elas podem cobrar quantias exorbitantes para medicamentos que salvam vidas. Os defensores do livre mercado podem tentar colocar a culpa da elevação dos preços numa regulamentação onerosa e desnecessária, mas esse argumento é superficial, uma vez que eles geralmente se opõem ao aumento do gasto público na pesquisa médica e da tributação, o que poderia evitar esse ciclo vicioso. Também ignora o fato de que as empresas de drogas gastam múltiplos do seu orçamento de pesquisa em marketing.

Também ignora o fato de que as empresas de drogas gastam múltiplos do seu orçamento de pesquisa em marketing.

Outro exemplo é o controle de armas. Muitos libertários americanos criticam qualquer sugestão de que os regulamentos devem ser apertados, insistindo que as pessoas têm o direito de armar-se para se tornarem mais seguras. Mas as estatísticas mostram que este argumento é absurdo: aqueles que carregam armas de fogo, mesmo para proteção, são muito mais propensos a serem baleados e aumentar o risco de morte para aqueles ao seu redor. Essas tendências são confirmadas vez e outra em estudos epidemiológicos sérios, mas apesar do próprio ato de arriscar a segurança dos outros, a posição ideológica dos direitos individuais supera os fatos para um contingente considerável da população dos Estados Unidos.

Todos esses problemas resultam de um choque entre ideologia e evidência. A filosofia impiedosamente individualista fetichizada pelas modernas disciplinas de Ayn Rand convenientemente ignoram o fato de que os seres humanos não existem no vácuo e que as ações individuais muitas vezes têm consequências para todos. O mantra de que o lucro é uma panaceia para tudo e que os direitos pessoais triunfam sobre o bem coletivo é frequentemente equivocado e potencialmente desastroso.

Isto não é para descartar toda a filosofia política como um disparate, nem para implicar que todos os liberais econômicos existem num estado de negação abjeta, mas devemos ser cautelosos em permitir que qualquer ideologia política nos cegue à realidade objetiva. Nossos direitos individuais devem ser equilibrados com os direitos dos outros, o que exige uma interpretação realista das filosofias políticas e um certo abrandamento das perspectivas extremistas.

Embora possamos ter convicções pessoais incrivelmente fortes, a realidade não se importa nem um pouco pelo que acreditamos. Se persistimos em escolher a ideologia sobre a evidência, isso nos põe em perigo.

A relação entre pseudociência e política

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Traduzido do original disponível em El País: La relación entre pseudociencia y política.

A pseudociência é sempre perigosa porque contamina a cultura e quando o que está em jogo é a saúde, a economia ou a organização política, a falsa ciência coloca a vida, a liberdade e a paz em risco. Mas, desde já, a pseudociência se torna extremamente perigosa quando goza do apoio de governos, religiões organizadas ou as grandes empresas. Alguns exemplos serão suficientes para tornar isso claro.

Desde o Iluminismo, a maioria dos progressistas defendeu que o genoma não determina nosso destino: que não apenas podemos aprender a pensar, mas também a sentir e agir, tanto de forma direta, através da imitação e aprendizagem, como de forma indireta, através da reforma social. Em vez disso, os conservadores e reacionários de todo tipo abraçaram o inatismo ou nativismo, a opinião de que nascemos com todas as características que emergem no curso de nossas vidas. Assim, as escrituras sagradas hindus consagraram o sistema de castas, a Bíblia defende que os judeus foram escolhidos por Yahweh; Aristóteles, que os “bárbaros” eram inferiores aos gregos; os colonialistas europeus, que os povos conquistados eram selvagens, bons apenas para serem escravizados ou exterminados e assim por diante. A posição inatista-conservadora debilitou-se consideravelmente com o Iluminismo e a subsequente difusão das ideologias de esquerda, mas ressurge de vez em quando. E assim o fez com particular virulência na forma do Darwinismo Social e mais recentemente sob as asas da Psicologia Evolutiva. Lembremos da última versão do inatismo “científico”.

“A lista de conquistas da ‘nova ciência da natureza humana’ de pinker mais parece o preâmbulo de um manifesto da nova direita, do que um resumo de descobertas científicas.”

 

Steven Pinker, um professor de Harvard e o psicólogo mais popular de nossa época, dedica um capítulo inteiro de um de seus influentes livros às questões políticas em torno do dilema ambientalismo/inatismo. Pinker afirma que “as novas ciências da natureza humana”, da genética até a psicologia evolutiva, justificam o que ele chama de uma visão trágica. Trata-se, nada mais nada menos, do individualismo, do pessimismo da economia ortodoxa e a filosofia política conservadora que vai de Hobbes, Burke, Schopenhauer e Hayek até Thatcher e Reagan. Pinker cita, em particular, as seguintes “descobertas” dessas “novas ciências”: “a primazia dos laços familiares”, apesar do fato de que na maioria dos casos os membros de empresas, grupos políticos, laboratórios, regimentos e equipes esportivas não estejam relacionados geneticamente; “o limitado alcance de partilha comum nos grupos humanos”, embora todas as sociedades humanas e muitas empresas modernas sejam cooperativas; “a universalidade da dominação e da violência em todas as sociedades humanas”, apesar que a taxa de homicídios tenha diminuído em todas as sociedades civilizadas durante o século passado e nem sequer as sociedades mais divididas são basicamente tirânicas ou violentas; e “a universalidade do etnocentrismo e outras formas de hostilidade entre grupos em todas as sociedades” como se a inegável luta não fosse equilibrada pela cooperação, pelo cumprimento das leis e dos interesses materiais.

Mas isso não é tudo: para nos convencer de que, basicamente, todos somos umas bestas ruins e egoístas, Pinker completa a lista anterior com o seguinte: “a herdabilidade parcial da inteligência, da meticulosidade e das tendências antissociais”, embora todas essas capacidades possam ser encorajadas ou reprimidas através da educação e do controle social informal; “a prevalência de mecanismos de defesa, a parcialidade interessada e a redução das dissonâncias cognitivas”, as quais, embora reais, são sem dúvida, menos acentuadas nas sociedades do estado de bem estar do que nas “liberais”; “Os preconceitos do senso moral humano”, incluindo o nepotismo e o conformismo, o que é verdade, mas isso não implica ignorar o fato de que junto do egoísmo se dão o altruísmo e o inconformismo e que com frequência, o progresso político inclui o progresso moral. Tudo isso constitui um claro exemplo de reducionismo radical falido; neste caso, fracassou a redução das ciências sociais à genética e à psicologia. Além disso, a lista de conquistas da “nova ciência da natureza humana” de Pinker mais parece o preâmbulo de um Manifesto da Nova Direita do que um resumo de descobertas científicas. O compromisso com uma ideologia política reacionária é um indicador confiável da natureza pseudocientífica de uma disciplina.

“Os autoproclamados psicólogos evolutivos afirmam com confiança que a desigualdade social está nos genes e que portanto, as revoluções sociais estão condenadas ao fracasso.”

 

Muito do exposto acima vale também para os autoproclamados psicólogos evolutivos que Pinker admira: eles também afirmam com confiança que a desigualdade social está nos genes e que, portanto, as revoluções sociais estão condenadas ao fracasso. Barkow, por exemplo, um dos fundadores, escreve: “A estratificação social é um reflexo do fato evolutivo de que as pessoas desejam mais benefícios para seus filhos do que desejam para os filhos das demais”. No entanto, certamente as barreiras de classe, por definição, retardam ou impedem totalmente a mobilidade social. Do qual resulta que só uma sociedade sem classes, ou pelo menos, uma sociedade em que as barreiras sociais sejam permeáveis, permita o desenvolvimento pessoal. Note que este é um argumento puramente lógico. O que exige evidência empírica é a suposição de que ter mais descendentes é inata e portanto, universal. Mas a genética humana não confirmou essa afirmação da genética pop.

Em vez de ter raízes biológicas, a estratificação social tem um forte impacto na qualidade e na duração da vida: as pessoas situadas no topo vivem melhor e mais tempo que seus subordinados. Aqui está mais ou menos o mecanismo psiconeuroendocrinoimunológico: subordinação → stress → liberação de cortisol → elevação da pressão sanguínea e glicemia → aumento da morbidade. Por isso a vida é melhor e mais longa no Japão e nos países nórdicos do que nas sociedades menos igualitárias, como Estados Unidos e Reino Unido.

Legisladores norte-americanos recorreram à eugenia, fomentada em uma época por muitos cientistas e intelectuais públicos de boa fé, para propor e aprovar leis que limitassem a imigração de pessoas de ‘raças inferiores‘.

 

Além disso, os arqueólogos sociais descobriram que a estratificação social não surgiu até cerca de 5000 anos atrás, juntamente com a civilização. Como Trigger diz em seu tratado monumental, “antropólogos usam o termo ‘civilizações antigas’ para as formas mais antigas e mais simples da sociedade, em que o princípio orientador fundamental de relações sociais não era o parentesco, mas uma hierarquia de divisões sociais que cruzou transversalmente a sociedade, cujas propriedades tinham desigual poder, riqueza e prestígio social. No entanto, vamos nos voltar para outros espécimes de pseudociência.

Legisladores norte-americanos recorreram à eugenia, fomentada em uma época por muitos cientistas e intelectuais públicos de boa fé, para propor e aprovar leis que limitam a imigração de pessoas de “raças inferiores” e levou à internação de milhares de crianças consideradas débeis mentais. Essa mesma “ciência” justificava as políticas raciais das potências coloniais e dos nazistas, e levou à escravidão e assassinato de milhões de nativos americanos, índios, negros, eslavos, judeus e ciganos.

“Há consenso de que aS culpaDAS por esta crise SÃO as políticas de ‘laissez faire’ aplicadAs pelos governos dos EUA e do Reino Unido desde os tempos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher.”

 

A crise global que começou em 2008 é um exemplo atual das consequências sociais catastróficas decorrentes de políticas sociais baseadas em filosofias econômicas e políticas equivocadas. Na verdade, há consenso de que as culpadas por esta crise são as políticas de laissez faire aplicadas pelos governos americano e britânico desde os tempos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Agora, laissez faire não é um slogan ideológico isolado: é a consequência lógica de dois dogmas que permanecem acriticamente, apesar das mudanças na realidade econômica desde que Adam Smith (1776) publicou sua grande obra. Esses dogmas são os princípios que a) o único propósito da atividade econômica é o lucro privado; e b) o mercado livre (não regulado) regula a si mesmo, ou seja, está sempre em equilíbrio ou perto dele, pois certamente, qualquer intervenção terá um efeito negativo sobre ele.

Por sua vez, a hipótese acima é baseada em três doutrinas filosóficas aceitas sem exame: uma ontologia individualista, uma epistemologia não científica e uma ética individualista. O individualismo é a tese de que só existem indivíduos: que as entidades coletivas, como empresas e nações, são produto da imaginação. Esta tese é errada: o que é fictício é o indivíduo isolado. Como dissemos em outro lugar, tudo o que existe no mundo real é um sistema ou um componente de um sistema. Neste caso particular, as ações individuais só podem ser compreendidas no seu contexto social. Pode-se iniciar a análise em nível micro ou macro, mas nenhuma análise é satisfatória negligenciando-se um dos dois extremos. A lição metodológica é que qualquer explicação satisfatória de um evento social irá incluir o que eu chamo de diagramas Boudon-Coleman (Bunge, 1996). Aqui está um exemplo recente:

La relación entre pseudociencia y política

macronível: crédito fácil, bolha imobiliária, crise

micronível: aumento por demanda de moradia, descumprimento

Os diagramas Boudon-Coleman vão contra a metodologia individualista radical, que incentiva a permanecer sempre no nível micro. Este ponto de vista metodológico, não pode permanecer neutro na controvérsia epistemológica entre o realismo (ou objetivismo) e subjetivismo: se for compatível, deve começar na experiência cognitiva individual e não no conhecimento, que é aprendido na sociedade e que se coloca a teste nas comunidades científicas (ou “ceticismo organizado” de Merton). Portanto, o individualista metodológico deve ser um subjetivista radical (como Berkeley, Kant, Fichte e Husserl), ou um empirista radical (como Hume, Comte, Mill ou Carnap). A combinação de Popper de individualismo metodológico radical e realismo epistemológico não funciona.

“Não há dúvida de que qualquer política econômica vai avançar certos interesses enquanto prejudicará outros. Em suma, toda política pública É moralmente comprometida.”

 

Assim como o holismo é acompanhado por uma ética do dever, como com Confúcio e Kant, o individualismo é atrelado ao slogan egoísta “cada um por si”. O sistemismo, no entanto, propõe uma ética humanista em que os direitos e deveres são igualmente importantes. Nessa filosofia moral, todo direito implica um dever e vice-versa. Por exemplo, o meu direito de ganhar a vida implica o dever de ajudar os outros a sobreviver, e meu dever de pagar impostos representa o meu direito de participar na decisão de como esse dinheiro será gasto. Defendo que as pessoas comuns são regidas por uma filosofia moral como esta, enquanto os políticos e economistas conservadores ortodoxos pregam a deontologia às massas, ao mesmo tempo que aconselham o egoísmo a seus clientes.

Todas as economias desenvolvidas são regidas por políticas de algum tipo. Por sua vez, estas políticas são projetadas com base em teorias econômicas e princípios morais, e são propostas ou implementadas por partidos políticos e governos:

La relación entre pseudociencia y política

O economista ortodoxo objetará a inclusão da política e da moralidade entre os determinantes da política econômica: dirá que se trata de regras puramente técnicas relativas ao manual de instruções do maquinário macroeconômico. Esta afirmação, no entanto, está incorreta no melhor dos casos e fingida no pior deles, já que não há dúvida de que toda a política econômica vai avançar certos interesses enquanto prejudicará outros. Por exemplo, o livre comércio favorece aos fortes ao mesmo tempo que freia o desenvolvimento dos fracos; e o estado de bem-estar melhora a sorte dos pobres taxando os ricos. Em suma, qualquer política pública é moralmente comprometida. Isto foi compreendido pelo grande socioeconomista Gunnar Myrdal quando, algum tempo atrás, nós exortou: Declare seus valores! Se não o fizermos, poderemos estar ajudando a justificar a pseudociência e a ciência mercenária, sobre a qual diremos algo logo mais.

NOTA DO TRADUTOR:

A “lista de descobertas” de Pinker a qual Mario Bunge se refere pode ser consultada na íntegra no best-seller The Blank State: The Modern Denial of Human Nature (2003, pg. 255). Reconheço que um princípio de caridade deva ser aplicado com relação à visão da violência em Pinker. Pois, é importante lembrar que o artigo acima, disponível na fonte citada logo no começo do texto, é também parte da obra de Bunge Matter and Mind, a Philosophical Inquiry cuja primeira publicação, em inglês, deu-se em 2010.

Em 2011, 1 ano depois, Pinker lançou outro conhecido best-seller intitulado The Better Angels Of Our Nature onde acredita que a violência no mundo tem diminuído e aponta para os mitos acerca deste fenômeno. O assunto é tema muitíssimo controverso e é disputado até hoje. Fazendo parte inclusive de discussões em sites de ceticismo e em grandes tabloides internacionais. Como se pode ver aqui e aqui.

Blackouts devido a tempestades solares poderiam custar 40 bilhões por dia aos EUA

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Ilustração artísticas dos eventos de mudança nas condições sol e meio interestelar próximo a terra. Crédito: NASA

Publicado na Earth & Space Science News

O custo econômico diário dos Estados Unidos causado pela queda de energia elétrica devido as tempestades solares pode chegar a dezenas de bilhões de dólares, com mais de metade das perdas em custos indiretos fora da zona de blackout, de acordo com um novo estudo.

Estudos anteriores têm se concentrado em custos econômicos diretos dentro da zona de blackout, não levando em conta a perda de cadeia indireta doméstica e internacional de condições climáticas extremas.

“Em média, o custo econômico direto incluído devido à interrupção da eletricidade representa apenas 49% do custo macroeconômico potencial total”, diz o artigo publicado na revista Space Weather, uma das revista da American Geophysical Union (AGU)[1]. O artigo foi coautoria de pesquisadores do centro para estudos de riscos da Universidade de Cambridge, Serviço antártico Britânico, Serviço Geológico Britânico e Universidade de Cape Town.

Sob o cenário de escassez de energia mais extremo do estudo, que afeta 66% da população dos EUA, a perda econômica doméstica diária poderia totalizar US $ 41,5 bilhões, mais uma perda adicional de US $ 7 bilhões através da cadeia de suprimentos internacional.

Especialistas em engenharia elétrica estão divididos sobre a possível severidade dos apagões causados pela “Ejeção de Massa Coronal”, ou campos magnéticos solares ejetados durante erupções solares (campo magnético interplanetário). Alguns acreditam que as interrupções poderiam durar apenas algumas horas ou alguns dias, porque o colapso elétrico do sistema de transmissão protegeria as instalações de geração de eletricidade, enquanto outros temem que os apagões pudessem durar semanas ou meses, porque essas redes de transmissão poderiam ser eliminadas e precisariam ser substituídas.

Eventos climáticos extremos ocorrem com frequência, mas só algumas vezes afetam a Terra. A tempestade geomagnética mais conhecida afetou Quebec em 1989, provocando o colapso elétrico da rede elétrica Hydro-Quebec e causando um apagão generalizado por cerca de nove horas.

Houve uma tempestade solar muito severa em 1859 conhecido como o “evento Carrington” (em homenagem ao astrônomo inglês de mesmo nome). Um documento amplamente citado de Pete Riley de Predictive Sciences Inc., em 2012, disse que a probabilidade de outro evento de Carrington ocorrer dentro da próxima década é de cerca de 12%; Um relatório de 2013 da seguradora Lloyd’s, produzido em colaboração com a Atmospheric and Environmental Research, diz que, embora a probabilidade de uma tempestade solar extrema seja “relativamente baixa em um determinado momento, é quase inevitável que um acontecerá eventualmente”.

Esta figura mostra a zona de blackout, interrupções diárias  e Perdas do PIB de acordo com diferentes cenários. O cenário S1 ocorre a 55 ± 2,75 graus de latitude geomagnética e causa uma perda econômica direta para a economia dos EUA de US $ 3,2 bilhões por dia (8% do PIB diário dos EUA). No cenário S2 (50 ± 2,75 graus de latitude geomagnética), uma proporção considerável da produção industrial é afetada, juntamente com 44 por cento da população. O cenário S3 (45 ± 2,75 graus latitude geomagnética) leva a uma perda econômica de US $ 16,5 bilhões por dia. O cenário muito maior de S4 (50 ± 7.75 graus de latitude geomagnética) leva a uma estimativa de perda econômica de US $ 41,5 bilhões por dia para a economia dos EUA combinada com uma perda diária para a economia global de US $ 7 bilhões. FONTE: AGU

“Nós sentimos que era importante olhar como o clima espacial extremo poderia afetar a produção doméstica dos EUA em vários setores da economia como as fabricas, governo e finanças, bem como as potencias perdas econômicas em outras nações, afetando toda a sua cadeia de fornecimento, diz o coautor do estudo, Edward Oughton, do centro de estudos de riscos da universidade de Cambridge. “Foi surpreendente que houvesse uma falta de investigação transparente sobre estes custos diretos e indiretos, dada a incerteza em torno da vulnerabilidade da infraestrutura elétrica para eventos solares”.

O escopo do estudo foi conduzido por uma conferência de julho de 2015 realizada no Cambridge Judge. O estudo analisa três cenários geográficos para os apagões causados ​​pelo clima espacial extremo, dependendo das latitudes afetadas por diferentes tipos de incidentes.

Se somente os estados do norte forem afetados, com 8% da população dos EUA, a perda econômica por o dia poderia alcançar U$ 6.2 bilhões suplementados por uma perda internacional da ordem de  U$ 0.8 bilhão. Um cenário que afeta 23% da população poderia ter um custo diário de US $ 16,5 bilhões, mais US $ 2,2 bilhões internacionalmente, enquanto um cenário que afeta 44% da população poderia ter um custo diário de US $ 37,7 bilhões nos EUA mais US $ 4,8 bilhões no mundo. (O estudo é calculado usando dólares americanos de 2011.)

A indústria transformadora é o setor econômico dos EUA mais afetado pelos apagões induzidos pelas tempestades solares, seguidos pelo governo, finanças e seguros e bens. Fora dos EUA, a China seria mais afetada pelo custo indireto de tais apagões nos EUA, seguido pelo Canadá e México – como “esses países fornecem uma maior proporção de matérias-primas e bens e serviços intermediários, usados ​​na produção por empresas dos EUA. “

Referências

[1] Oughton, E. J., A. Skelton, R. B. Horne, A. W. P. Thomson, and C. T. Gaunt (2017), Quantifying the daily economic impact of extreme space weather due to failure in electricity transmission infrastructure, Space Weather, 15, 6583, doi:10.1002/2016SW001491.

Europa: nossa melhor chance de encontrar vida alienígena?

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Europa possui um vasto e salgado oceano sob a sua crosta de gelo fraturada. Crédito: NASA/JPL-Caltech/Instituto SETI.

Artigo traduzido de BBC. Autor: Paul Rincon.

Orbitando o planeta gigante Júpiter está um mundo gelado, apenas um pouco menor que nossa Lua.

De longe, Europa parece estar gravado com várias linhas escuras interligadas, como o produto do rabisco caótico de uma criança.

Se nos aproximarmos, elas se revelam ser longas fendas lineares no gelo, estendendo-se, em alguns casos, por milhares de quilômetros. Muitas estão cheias de um contaminante desconhecido que os cientistas apelidaram de “lama”. Em outros lugares, a superfície é irregular, como se placas maciças de gelo tivessem se desprendido, migrado e derretido.

A imensa gravidade de Júpiter ajuda a gerar forças de maré que repetidamente esticam e contraem a lua. Mas o estresse que criou o terreno destruído de Europa é melhor explicado pela crosta de gelo flutuando em um oceano de água líquida.

“O fato de haver água líquida debaixo da superfície, descoberta em missões anteriores, em particular pelas observações do magnetômetroda espaçonave Galileo durante seus sobrevoos (nos anos 90), o torna um dos mais emocionantes alvos possíveis para procurar vida”, diz o professor Andrew Coates do Laboratório de Ciência Espacial Mullard da UCL em Surrey, Reino Unido.

A profundidade do oceano de Europa pode estender-se de 80 a 170 km até o interior da lua, o que significa que pode ter duas vezes mais água líquida lá do que em todos os oceanos da Terra.

Europa Clipper vai fazer pelo menos 45 sobrevoos na lua de Júpiter durante sua missão principal. Crédito: NASA/JPL-Caltech.

E enquanto a água é um dos pré-requisitos vitais para a vida, o oceano de Europa pode ter outros – como uma fonte de energia química para os micróbios. Além disso, o oceano pode se comunicar com a superfície através de uma série de meios, incluindo bolhas quentes subindo através da crosta de gelo. Assim, estudar a superfície pode fornecer pistas para o que está acontecendo no oceano.

Agora, a Nasa está preparando duas missões para explorar este mundo intrigante. Ambas foram discutidas na 48ª Conferência de Ciência Lunar e Planetária (LPSC) em Houston.

A primeira é uma missão de sobrevoo chamada Europa Clipper, que provavelmente será lançado em 2022. A segunda é um lander que iria alguns anos mais tarde.

O Dr. Robert Pappalardo, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, é cientista do projeto Clipper.

“Estamos realmente tentando descobrir a habitabilidade potencial da Europa, os ingredientes para a vida: água, e se há energia química para a vida”, ele disse. “Estamos tentando entender o oceano e a crosta de gelo, a composição e a geologia, e juntando tudo isso está o nível de atividade atual em Europa”.

A Clipper carregará uma carga útil de nove instrumentos, incluindo uma câmera que irá registrar imagens da maior parte da superfície; espectrômetros para compreender sua composição; radar de penetração de gelo para mapear a crosta de gelo em três dimensões e encontrar água debaixo dela; e um magnetômetro para descrever o oceano.

No entanto, desde que a espaçonave Galileo forneceu evidências para seu oceano na década de 1990, aprendemos que Europa não é o único.

“Uma das descobertas mais surpreendentes e significativas da década passada na exploração planetária é que você não pode dar um passo no Sistema Solar externo sem tropeçar em um mundo oceânico”, diz Curt Niebur, cientista do programa Clipper, na sede da NASA em Washington DC.

Na lua Enceladus de Saturno, por exemplo, o gelo de um oceano subterrâneo é lançado no espaço através das fissuras no Polo Sul.

O satélite saturniano também pode ter uma missão dedicada nos anos 2020, mas o Dr. Niebur acredita que Europa se destaca: “Europa é muito maior que Enceladus e tem mais de tudo: mais atividade geológica, mais água, mais espaço para a água, mais calor, mais ingredientes crus e mais estabilidade em seu ambiente”.

Mas há outra coisa que marca a lua: sua vizinhança. O caminho orbital de Europa leva ao intenso campo magnético de Júpiter, que prende e acelera as partículas.

Os cinturões resultantes da radiação intensa fritam os equipamentos eletrônicos da nave espacial, limitando a duração das missões em meses ou mesmo semanas. Dito isto, essa radiação também impulsiona reações na superfície de Europa, produzindo substâncias químicas chamadas oxidantes. Na Terra, a biologia explora as reações químicas entre oxidantes e compostos conhecidos como redutores para fornecer a energia necessária para a vida.

No entanto, os oxidantes feitos na superfície só são úteis para os micróbios de Europa se eles puderem descer para o oceano. Felizmente, o processo de convecção que empurra bolhas quentes de gelo para cima também pode levar material da superfície para baixo. Uma vez no oceano, os oxidantes poderiam reagir com os redutores produzidos pela água do mar reagindo com o fundo rochoso do oceano.

“Você precisa de ambos os polos da bateria”, explica Robert Pappalardo.

(Não está em escala): Europa em corte transversal, mostrando processos desde o fundo do mar até à superfície (Europa Lander Study 2016 Report). Crédito: NASA.

Para cientistas como o Dr. Pappalardo, as missões iminentes são a realização de um sonho de duas décadas. Desde que os primeiros conceitos de missão Europa foram elaborados no final dos anos 90, uma proposta promissora após a outra foi frustrada.

Nesse tempo, Estados Unidos e Europa juntaram recursos para uma missão que enviaria espaçonaves separadas para Europa e para a maior lua de gelo de Júpiter, Ganimedes. Mas o plano foi cancelado em meio a cortes orçamentários, com a parte europeia evoluindo para a missão Juice.

“Eu acho que não houve uma missão para Europa nos últimos 18 anos que eu não tenha me envolvido ou tomado conhecimento”, diz Curt Niebur.

“Foi um longo caminho, a estrada para o lançamento de uma missão é sempre dura, e está sempre cheia de angústia, mas já experimentamos mais do que a maioria em Europa”.

Explorar Europa é caro – embora não mais do que outras missões “emblemáticas” da NASA, como Cassini ou o rover Curiosity.

Existem desafios de engenharia inerentes, como operar dentro dos cinturões de radiação de Júpiter. Os instrumentos da nave espacial precisam ser protegidos com materiais como titânio, mas, diz o Dr. Pappalardo, “você só pode protegê-los até certo ponto, porque eles têm que ser capazes de ver Europa”.

Então, para manter a Clipper segura, a NASA vai se desviar do livro de regras um pouco. “Supostamente sempre foi: Galileo passou por Europa, então a próxima missão tem que ser uma missão de órbita”. “É assim que fazemos negócios”, diz o Dr. Niebur. Mas, ao invés de orbitar Europa, a Clipper reduzirá sua exposição à radiação de missões encurtando a órbita de Júpiter e fará pelo menos 45 sobrevoos da lua gelada durante três anos e meio.

“Nós percebemos que poderíamos evitar os desafios técnicos de orbitar Europa, tornar a missão muito mais viável e ainda obter os dados que queremos”, diz o cientista do programa Clipper.

A força da luz solar que chega à Europa é cerca de 1/30 do que chega à Terra. Mas a Nasa decidiu que poderia equipar a Clipper com painéis solares ao invés dos geradores radioativos que outras missões planetárias externas usaram. “Todos esses anos de estudo nos forçaram a largar nossas pre-concepções e nos focar na realidade, não na nossa lista de desejos… nos concentrar na melhor opção”, diz Curt Niebur.

Em 2011, após o cancelamento da missão EUA-Europa, um relatório do Conselho Nacional de Pesquisa reafirmou a importância de explorar a lua gelada. Mesmo assim, a NASA ficou cautelosa por causa do custo.

Quatro pontos de vista da superfície de Europa a partir da missão Galileo, no sentido horário do topo esquerdo: (1) crosta de gelo rompida na região de Conamara; (2) placa crustal, que se pensa ter quebrado e “migrado” para novas posições; (3) faixas avermelhadas; (4) uma estrutura de impacto do tamanho do Havaí. Crédito: NASA/JPL/University of Arizon.

Mas o apoio em Capitol Hill tem sido fundamental. A missão a Europa tem apoio bipartidário, e o congressista republicano John Culberson – presidente do Subcomitê de Apropriações da Câmara, que tem jurisdição sobre o orçamento da NASA – tem salvado a missão.

O legislador texano de 60 anos de idade é fascinado por Europa desde que o observou através do telescópio Celestron 8, que ele comprou como presente de graduação do ensino médio. Nos últimos quatro anos, o subcomitê que ele presidiu canalizou dinheiro para cientistas que trabalham em Europa, mesmo quando o chefe da agência espacial não estava pedindo isso.

O investimento generoso significa que muito mais do trabalho técnico foi terminado para a Clipper do que é normal para uma missão em seu estágio (fase B) no ciclo do projeto da NASA. O módulo de pouso encontra-se em estágio inicial de desenvolvimento, denominado pré-fase A, mas um relatório sobre o valor científico da missão foi discutido em uma oficina no LPSC.

A sonda não recebeu nenhum financiamento no pedido de orçamento do Presidente para 2018 para a NASA. Mas o Dr. Jim Green, diretor de ciência planetária na agência, me disse: “Essa missão em particular é tremendamente emocionante, porque nos dará informações da superfície de uma lua que é realmente difícil de alcançar.

“Nós ainda temos muitos processos a desenvolver, fazer tudo o que é preciso, entender o tipo de medidas que precisamos tomar. Então vamos trabalhar com a administração para, no momento certo, ver se, financeiramente, podemos seguir com a missão.”

Alguns conceitos inovadores de Europa foram propostos nas últimas duas décadas, refletindo a recompensa científica a ser conquistada ao alcança-la. O Dr. Geraint Jones do Laboratório de Ciência Espacial Mullard trabalhou em um conceito chamado penetrador.

“Eles ainda não foram enviados ao espaço, mas é uma tecnologia realmente promissora”, explica ele. Um projétil implantado a partir de um satélite atinge a superfície “realmente sólida, a cerca de 300 m/s, cerca de 1080 km/h”, expondo o gelo intocado para análises feitas por instrumentos de bordo, que poderiam ser projetados para suportar o impacto.

Por outro lado, o próximo lander da NASA pousaria suavemente com a ajuda da tecnologia Sky Crane usada para pousar o rover Curiosity com segurança em Marte em 2012. Durante a aterrissagem, ele usará um sistema de pouso autônomo para detectar e evitar riscos de superfície em tempo real.

A Clipper irá fornecer o reconhecimento para um local de pouso. “Eu gosto de pensar nisso como encontrar o oásis certo, onde pode haver água perto da superfície. Talvez seja quente e talvez tenha materiais orgânicos”, diz Bob Pappalardo.

A nave estaria equipada com uma carga útil de instrumento sensíveis e uma serra contra-rotativa para ajudar a obter amostras mais frescas abaixo do gelo superficial processado pela radiação.

“O lander irá obter a amostra mais fresca e mais intocada possível. Uma maneira de fazer isso é cavar fundo, outra maneira é indo para onde há algum tipo de erupção na superfície – como uma pluma – que deixa cair material muito fresco na superfície”, diz Curt Niebur.

Nos últimos anos, o telescópio Hubble fez observações de plumas de água e gelo em erupção sob Europa, assim como em Enceladus. Mas não adianta pousar num local de uma erupção antiga, ele precisa visitar uma pluma muito recente.

Assim, os cientistas precisam entender o que está controlando esses gêiseres: por exemplo, a Clipper irá determinar se as plumas estão correlacionadas com quaisquer pontos quentes na superfície.

O lander de Europa da NASA poderia determinar se houve ou há vida na lua joviana. Crédito: NASA/JPL-Caltech.

Os mares da Terra estão cheios de vida, por isso pode ser difícil para nós contemplarmos a perspectiva de um oceano estéril de mais de 100 km de profundidade em Europa. Mas o limite científico para a detecção da vida é muito elevado. Seremos capazes de reconhecer a vida alienígena se ela estiver lá?

“O objetivo do lander não é simplesmente detectar a vida, mas coletar provas o suficiente de que a detectamos”, explica Niebur. “Não é bom para nós investir nesta missão se tudo o que criarmos for uma controvérsia científica”.

Assim, a equipe científica do lander tem duas maneiras de resolver isso. Primeiro, qualquer detecção de vida tem que ser baseada em múltiplas e independentes linhas de evidência de medições diretas.

“Não é tão simples, você não faz uma medição e diz: ‘aha, eureka nós a encontramos’. Você olha a soma total”, diz o Dr. Niebur. Em segundo lugar, os cientistas criaram uma estrutura para interpretar esses resultados, alguns dos quais podem ser positivos, enquanto outros negativos: “Ele cria uma árvore da decisão que caminha através de todas as diferentes variáveis: sim, encontramos a vida, ou não, não encontramos”, diz ele.

Na oficina de pouso no LPSC, Kevin Hand da NASA descreveu o processo como o bingo da bioassinatura. Agora, a equipe terá que ver se a comunidade científica é persuadida.

Curt Niebur explica: “Quero ter essa discussão agora, hoje, anos antes de lançarmos, para que todos possamos estar focados na análise dos dados quando pousarmos”.