O mundo pós-humano

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Athit Perawongmetha / Reuters

Traduzido de The Atlantic

Fome, epidemias e guerra. Estas três coisas têm sido as desgraças da história humana. Mas hoje, na maioria dos países é mais provável que as pessoas morram por comer demais do que comer muito pouco, mais provável que morram de velhice do que uma grande epidemia e mais provável que cometam suicídio do que morrerem em uma guerra.

Com fome, epidemias e guerra em declínio – ao menos por agora – a humanidade vai voltar seu foco em atingir imortalidade e felicidade permanente, de acordo com o novo livro Homo Deus de Yuval Harari. Nas outras palavras, nos transformarmos em deuses.

Sua obra anterior de Harari, Sapiens, foi uma destemida história da espécie humana. Seu novo livro é outra aventura alucinante, que mistura filosofia, história, psicologia e futurismo. Nós conversamos recentemente sobre suas predições mais audaciosas. Esta conversa foi editada para melhor clareza e concisão.


Derek Thompson: Em Homo Deus você prediz o fim do trabalho, o fim do individualismo liberal e, até mesmo, o fim da humanidade. Vamos pegar um por um.

Primeiramente: trabalho. Você tem um modo inteligente e assustador de olhar para as implicações políticas da automação em massa. No fim do século XIX, França, Alemanha e Japão ofereceram assistência médica gratuita para seus cidadãos. Seu objetivo não era estritamente fazer as pessoas felizes, mas sim para fortalecer o potencial de suas indústrias e seus exércitos. Em outras palavras, bem-estar social era necessário porque pessoas eram necessárias. Mas você faz a temida pergunta: O que acontece com o bem-estar social em um futuro onde o governo não precisa mais de pessoas?

Yuval Harari: É um cenário muito assustador. E não é ficção científica. Isso já está acontecendo.

A razão para criar todos estes sistemas de serviços sociais para o povo era para sustentar exércitos fortes e economias fortes. Agora os exércitos mais avançados não precisam de [tantas] pessoas. O mesmo pode acontecer na economia civil. O problema é a motivação: e se o governo perde a motivação para ajudar a população?

Na Escandinávia a tradição do Bem-estar Social é tão impregnada que possivelmente eles irão continuar a fornecer assistência mesmo para os cidadãos inúteis. Mas o que dizer da Nigéria, África do Sul e China? Eles são incentivados a fornecer serviços principalmente na esperança de promover a prosperidade, [que exige] ter uma grande base de cidadãos saudáveis e inteligentes. Mas tire isso e você pode ter um país com uma elite que não se importa com a população.

Thompson: O último ponto é interessante, porque, na Europa e Estados Unidos, o oposto parece mais verdadeiro: a população não se importa, ou acha que não precisa, com a elite. Isso é parte de como tivemos Trump e o Brexit. Agora também tem estas reações da direita radical contra o establishment que percorre por toda a Europa. Por que isso está acontecendo agora?

Harari: Esta é a grande pergunta. Eu não previ isso vindo. Não é minha especialidade analisar a situação política nos EUA ou Europa. Mas se você olhar para a condição objetiva de saúde e coisas do tipo, a maioria das pessoas nos Estados Unidos e Europa Ocidental têm melhores condições do que costumavam ter. Mas elas sentem que estão sendo deixadas de lado e perdendo poder. E elas têm medo que suas crianças tenham uma vida pior do que elas têm hoje. Eu acho que estes medos possam ser justificados. Mas eu não acho que o antídoto vai funcionar. Trump não ajudará os eleitores do Alabama a recuperar seu poder.

a felicidade da maioria das pessoas depende de suas expectativas, não de suas condições

Thompson: Americanos podem ser mais ricos e mais educados do que eram uma geração anterior, com melhores cuidados médicos e opções de entretenimento superiores, mas o fato do progresso não parece importar. A narrativa é tudo que importa. E a narrativa vitoriosa de Trump era que as cidades dos Estados Unidos estavam caindo aos pedaços e “só eu posso corrigi-las”.

Harari: [Os americanos brancos sem curso superior] são uma classe em declínio dentro de um poder em declínio. Os EUA estão perdendo poder em comparação com o resto do mundo, e dentro dos EUA, os eleitores Trump estão perdendo seu status. Mesmo que eles estejam experimentando melhores condições, a narrativa que é dominante na maioria das pessoas conta uma história de declínio, que diz que o futuro será pior do que o presente. E a felicidade da maioria das pessoas depende de suas expectativas, não de suas condições.

Thompson: Digamos que o futuro para a maioria das pessoas é uma renda básica universal, maravilhosas drogas psicodélicas e videogames de realidade virtual. As pessoas não passam fome. Eles não são miseráveis. Mas eles também param de lutar. As virtudes de Walt Disney (“Desafie você mesmo! Faça uma aventura!”) são sacrificadas para viver permanentemente dentro de um entretenimento no estilo Disney. É utopia ou distopia?

Harari: A maioria dos filósofos vão dizer que a sua hipótese é uma distopia. Um mundo muito pior.

Mas você poderia argumentar é que as pessoas já passam a maior parte de suas vidas em jogos virtuais. A maioria das religiões são jogos virtuais sobrepostos à realidade da vida. Faça aquilo, e há uma punição. Faça isso, e você ganha pontos extras. Não há nada na realidade que corresponda a tais regras. Mas você tem milhões de pessoas jogando esses jogos de realidade virtual. Então, qual é a diferença entre uma religião e um jogo de realidade virtual?

Recentemente eu fui caçar Pokémon com meu sobrinho. Estávamos andando pela rua e um bando de crianças se aproximaram de nós. Eles também estavam caçando Pokemon. Meu sobrinho e essas crianças entraram em uma pequena briga porque estavam tentando capturar as mesmas criaturas invisíveis. Isso foi estranho para mim. Mas esses Pokémons eram muito reais para as crianças.

E então isso me atingiu: Isto é análogo ao conflito entre Israel e Palestina! Você tem dois lados lutando por algo que eu não consigo ver. Eu olho para as pedras das construções em Jerusalém e eu só vejo pedras. Mas cristãos, judeus e muçulmanos que olham para as mesmas pedras veem uma cidade santa. É a imaginação deles, mas eles estão dispostos a matar por isso. Essa é a realidade virtual, também.

Sua hipótese também levanta uma profunda questão filosófica: Qual é o significado da vida? Historicamente, os filósofos investigaram questões que eram interessantes para apenas uma pequena porcentagem da humanidade.

Thompson: Certo. “Qual é a maneira ideal de buscar a felicidade?” não é um questionamento útil quando toda uma região está morrendo de epidemia.

Harari: Sim, mas uma vez que você está livre de se preocupar com fome e epidemias, isso se torna uma pergunta muito mais prática: Qual é o significado da vida? Se você projeta um carro auto dirigível, você deve planejar algoritmos éticos no caso de eles estar prestes a bater em uma criança. Deve arriscar ferir o pedestre ou o passageiro? Isso é, de repente, uma questão muito prática. Filosofia, outrora um sistema arcaico, torna-se central quando nos preocupamos com a morte e a miséria de forma generalizada.

Thompson: Tudo bem, vamos passar do fim do trabalho para o fim do individualismo.

Você tem uma bela maneira de resumir o relacionamento dos seres humanos com a autoridade. Primeiro, acreditamos que a autoridade veio dos deuses. Mas essa crença deu lugar ao liberalismo moderno, que nos diz que a autoridade vem dos indivíduos. A democracia diz que o poder vem dos eleitores, não de divindades. O capitalismo diz que o consumidor sempre tem razão, não a Bíblia. Os comerciantes dizem que a beleza reside no olho do espectador, não em formas platônicas.

Mas você tem uma predição alarmante de que os seres humanos vão se fundir com os computadores, algoritmos e dispositivos bioquímicos que tornam nossas vidas melhores. Vamos ceder nossa autoridade e identidade aos dados e à inteligência artificial. Que invenção ou inovação no mundo agora é o melhor exemplo deste futuro?

Harari: Eu gosto de começar com as coisas simples. Olhe para os aplicativos GPS, como Waze e Google Maps. Cinco anos atrás, você ia a algum lugar no seu carro ou a pé. Você se guiava com base em seu próprio conhecimento e intuição. Mas hoje todo mundo está cegamente seguindo o que Waze está dizendo. A habilidade básica de navegarem sozinhos foi perdida. Se algo acontecer com o aplicativo, estarão completamente perdidos.

Esse não é o exemplo mais importante. Mas está no caminho do que estamos falando. Você define um ponto no mapa, e você confia no algoritmo. Talvez o ponto seja a sua carreira. Talvez seja a decisão de se casar. Mas você confia no algoritmo ao invés de sua própria intuição.

A invenção mais importante que está se espalhando agora são sensores biométricos. Eles se tornarão bastante comuns. Os seres humanos consultarão seus dados biométricos para determinar como viver. Este sensores são realmente interessantes e assustadores, porque nós não estaremos mais no comando da nossa identidade. Iremos terceirizar nossas decisões executivas para leituras biométricas de nossos sinais neuroquímicos para decidir como viver.

Thompson: Aqui vai como eu entendo essa ideia. É o futuro, e estou com fome em uma noite de sexta-feira. Eu penso: “Eu gostaria de frango frito”. Então eu consulto minha IA assistente, que pode ler meus sinais bioquímicos e prever minhas futuras emoções, que me diz: “Na verdade, Derek, uma salada de frango vai te fazer mais feliz”. Então eu como salada.

Em uma base de caso a caso, esta tecnologia me parece maravilhosa. Está me fazendo muito mais saudável e feliz. A tecnologia está me livrando dos erros naturais da má compreensão dos meus futuros desejos e necessidades. Mas ao mesmo tempo, meu “eu” desapareceu, porque eu terceirizei minha identidade para um analista bioquímico.

Harari: Exatamente.

Neste cenário, veremos que as decisões não vêm de uma alma mística, mas de processos biológicos no cérebro. No passado, não conseguíamos reunir os dados e analisá-los. Assim você poderia imaginar que existia uma alma mística, transcendental dentro de você que faz estas decisões. De uma perspectiva prática era uma estimativa bastante boa. Mas, uma vez que você combina uma melhor compreensão dos processos bioquímicos no corpo com o poder computacional de big data, acontece uma verdadeira revolução, porque esta noção tradicional de livre arbítrio não faz mais sentido prático e você pode ter algoritmos que tomam melhores decisões do que um indivíduo humano.

Thompson: Isso é fascinante, porque agora acho que esses algoritmos estão me deixando mais próximo de mim mesmo. Se uma pulseira fitness me incentiva a correr mais ou um algoritmo de entretenimento descobre uma música que eu amo, eu fico mais feliz. E eu prefiro estar feliz.

Mas ao mesmo tempo, minhas decisões foram reduzidas a sinais cerebrais e leitores de sinais cerebrais. “Eu” não sou especial, nem sagrado, nem mesmo indivíduo. Eu sou apenas uma embarcação para um monte de sinais que são lidos melhor por um computador. Não há espaço para “mim” nessa combinação.

Harari: O que realmente acontece é que o seu “eu” se desintegra. Não é que você compreenda melhor seu verdadeiro eu, mas você acaba percebendo que não existe um verdadeiro eu. Há apenas uma conexão complicada de conexões bioquímicas sem um núcleo. Não há voz autêntica que viva dentro de você.

Você já assistiu Divertida Mente (Inside Out, em inglês)? Para mim, esse foi o ponto de inflexão na compreensão da cultura popular sobre a mente. Durante décadas, a Disney nos vendeu a fantasia individualista liberal: Não ouça seus vizinhos ou governo, basta seguir seu próprio coração. Mas então, em Divertida Mente, você vai dentro desta menininha Riley, e você não encontra um “eu” ou uma identidade central. O que o filme mostra para as crianças e seus pais é que Riley é um robô sendo manipulado por processos químicos dentro de seu cérebro. O ponto cataclísmico da história é quando você percebe que nenhuma das emoções dentro dela é o seu verdadeiro eu. No começo você se identifica com Joy, mas o momento crítico vem quando você percebe que nenhuma dessas emoções é o verdadeiro eu de Riley. É um equilíbrio entre as diferentes emoções.

E eu acho que isso é o que vai acontecer cada vez mais e mais em um nível geral. A própria ideia de um indivíduo que existe, que tem sido tão preciosa para nós, está em perigo.

Telescópio da NASA revela o maior grupo de planetas do tamanho da Terra na zona habitável de uma única estrela

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Esta ilustração mostra a possível superfície de TRAPPIST-1f, um dos planetas recém-descobertos no sistema TRAPPIST-1. Cientistas usando o telescópio espacial Spitzer e telescópios terrestres descobriram que existem sete planetas do tamanho da Terra no sistema. Créditos: NASA / JPL-Caltech.

Artigo traduzido de NASA. Autor: Karen Northon.

O telescópio espacial Spitzer da NASA revelou o primeiro sistema conhecido de sete planetas do tamanho da Terra em torno de uma única estrela. Três desses planetas estão localizados na zona habitável, a área em torno da estrela-mãe, onde é mais provável que um planeta rochoso tenha água líquida.

A descoberta estabelece um novo recorde para o maior número de planetas ​​encontrados em zonas habitáveis em torno de uma única estrela fora do nosso sistema solar. Todos esses sete planetas poderiam ter água líquida – chave para a vida como a conhecemos – sob as condições atmosféricas corretas, mas as chances são maiores nos três planetas na zona habitável.

“Esta descoberta pode ser uma peça significativa no quebra-cabeças de encontrar ambientes habitáveis, lugares propícios para a vida”, disse Thomas Zurbuchen, administrador associado do Departamento de Missão Científica da agência em Washington. “Responder à pergunta ‘estamos sozinhos?’ é uma prioridade científica e encontrar tantos planetas como estes pela primeira vez na zona habitável é um passo notável em direção a esse objetivo”.

A cerca de 40 anos-luz da Terra, o sistema de planetas está relativamente próximo a nós, na constelação de Aquário. Como eles estão localizados fora de nosso sistema solar, esses planetas são cientificamente conhecidos como exoplanetas.

Este sistema de exoplanetas foi chamado de TRAPPIST-1, nome que vem de Transiting Planets and Planetesimals Small Telescope (TRAPPIST) no Chile. Em maio de 2016, pesquisadores usando o TRAPPIST anunciaram ter descoberto três planetas no sistema. Observado por vários telescópios terrestres, incluindo o Very Large Telescope do European Southern Observatory, o Spitzer confirmou a existência de dois desses planetas e descobriu outros cinco, aumentando para sete o número de planetas conhecidos no sistema.

Os novos resultados foram publicados quarta-feira na revista Nature, e anunciados em uma entrevista coletiva na sede da NASA em Washington.

A estrela TRAPPIST-1, uma anã ultra-fria, tem sete planetas do tamanho da Terra a orbitando. Essa concepção artística apareceu na capa da revista Nature em 23 de fevereiro de 2017. Créditos: NASA / JPL-Caltech.

Usando os dados de Spitzer, a equipe precisamente mediu os tamanhos dos sete planetas e desenvolveu as primeiras estimativas das massas de seis deles, permitindo que sua densidade fosse estimada.

Com base em suas densidades, todos os planetas de TRAPPIST-1 são possivelmente rochosos. Outras observações não só ajudarão a determinar se eles são ricos em água, mas também possivelmente revelarão se poderiam ter água líquida em suas superfícies. A massa do sétimo e mais distante exoplaneta ainda não foi estimada – os cientistas acreditam que poderia ser um mundo gelado, semelhante a uma bola de neve, mas são necessárias mais observações.

“As sete maravilhas da TRAPPIST-1 são os primeiros planetas do tamanho da Terra que foram encontrados orbitando este tipo de estrela”, disse Michael Gillon, principal autor do estudo e pesquisador principal do estudo TRAPPIST sobre exoplanetas na Universidade de Liege, Bélgica. “É também o melhor alvo até agora para estudar as atmosferas de mundos do tamanho da Terra potencialmente habitáveis”.

Essa concepção artística mostra como cada um dos planetas TRAPPIST-1 pode parecer, com base nos dados disponíveis sobre seus tamanhos, massas e distâncias orbitais. Créditos: NASA / JPL-Caltech.

Em contraste com o nosso Sol, a estrela TRAPPIST-1 – classificada como uma anã ultra-fria – é tão fria que a água líquida poderia sobreviver em planetas a orbitando muito de perto, mais perto do que é possível em planetas em nosso sistema solar. Todas as sete órbitas planetárias de TRAPPIST-1 estão mais próximas de sua estrela do que Mercúrio está do nosso sol. Os planetas também estão muito próximos uns dos outros. Se uma pessoa estivesse em pé sobre uma superfície do planeta, eles poderiam olhar para cima e potencialmente ver as características geológicas ou nuvens de mundos vizinhos, que às vezes pareceriam maiores do que a lua no céu da Terra.

Os planetas também podem estar com o mesmo lado do planeta sempre voltado para a estrela, portanto, num lado é sempre dia e no outro sempre noite. Isso poderia significar que eles têm padrões de tempo totalmente diferente daqueles na Terra, como ventos fortes soprando do lado do dia para o lado noturno e mudanças extremas de temperatura.

O Spitzer, um telescópio de infravermelho que orbita a Terra, era adequado para estudar TRAPPIST-1 porque a estrela brilha com luz infravermelha, cujos comprimentos de onda são mais longos do que os olhos podem ver. No outono de 2016, o Spitzer observou TRAPPIST-1 por quase 500 horas seguidas. O Spitzer está posicionado de forma única em sua órbita para observar transições de cruzamento suficientes dos planetas na frente da estrela-mãe para revelar a complexa arquitetura do sistema. Os engenheiros otimizaram a habilidade do Spitzer de observar planetas em trânsito durante a “missão quente” do Spitzer, que começou depois que a refrigeração da espaçonave funcionou como planejado após os primeiros cinco anos de operações.

“Este é o resultado mais emocionante que eu vi nos 14 anos de operações do Spitzer”, disse Sean Carey, gerente do Centro de Ciências Spitzer da NASA na Caltech / IPAC em Pasadena, Califórnia. “No outono, o Spitzer refinará ainda mais nossa compreensão desses planetas para que o Telescópio Espacial James Webb possa acompanhar. Mais observações do sistema certamente revelarão mais segredos”.

Na sequência da descoberta do Spitzer, o telescópio espacial Hubble da NASA iniciou a triagem de quatro dos planetas, incluindo os três dentro da zona habitável. Essas observações visam avaliar a presença de atmosferas inchadas, dominadas pelo hidrogênio, típicas de mundos gasosos como Netuno, em torno desses planetas.

Em maio de 2016, a equipe do Hubble observou os dois planetas mais próximos da estrela e não encontrou nenhuma evidência para tais atmosferas inchadas. Isso reforçou a possibilidade de que os planetas mais próximos da estrela sejam rochosos.

“O sistema TRAPPIST-1 oferece uma das melhores oportunidades na próxima década para estudar as atmosferas ao redor dos planetas do tamanho da Terra”, disse Nikole Lewis, co-líder do estudo do Hubble e astrônomo do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial em Baltimore, Maryland. O telescópio espacial Kepler da NASA também está estudando o sistema TRAPPIST-1, fazendo medições das minúsculas mudanças do brilho da estrela devido a órbitas planetárias. Operando como a missão K2, as observações da espaçonave permitirá aos astrônomos refinar as propriedades dos planetas conhecidos, bem como a busca de planetas adicionais no sistema. As observações do K2 serão concluídas no início de março e disponibilizadas no arquivo público.

Este poster mostra como uma viagem a TRAPPIST-1e pode ser. Créditos: NASA / JPL-Caltech.

Spitzer, Hubble e Kepler ajudarão os astrônomos a planejarem os próximos estudos usando o próximo telescópio espacial James Webb da NASA, que será lançado em 2018. Com sensibilidade muito maior, o Webb poderá detectar as impressões químicas de água, metano, oxigênio, ozônio, e outros componentes da atmosfera de um planeta. O Webb também analisará as temperaturas dos planetas e as pressões de superfície – fatores chave na avaliação de sua habitabilidade.

NASA anuncia descoberta de um sistema estelar com sete exoplanetas

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Impressão artística do sistema planetário TRAPPIST-1.

Publicado na ESO

Astrônomos descobriram um sistema com sete planetas do tamanho da Terra a cerca de apenas 40 anos-luz de distância. Com o auxílio de telescópios no espaço e também no solo, incluindo o Very Large Telescope do ESO, os planetas foram todos detectados quando passavam em frente da sua estrela progenitora, a estrela anã superfria chamada TRAPPIST-1. De acordo com o artigo científico publicado hoje na revista Nature, três dos planetas situam-se na zona habitável da estrela e poderão ter oceanos de água à superfície, aumentando a possibilidade deste sistema planetário poder conter vida. O sistema tem ao mesmo tempo o maior número de planetas do tamanho da Terra descoberto até agora e o maior número de mundos que poderão ter água líquida em sua superfície.

Os astrônomos utilizaram o telescópio TRAPPIST-South instalado no Observatório de La Silla do ESO, o Very Large Telescope (VLT) situado no Paranal e o Telescópio Espacial Spitzer da NASA, além de outros telescópios em todo o mundo para confirmar a existência de pelo menos sete pequenos planetas em órbita da estrela anã vermelha fria TRAPPIST-1. Todos os planetas, com os nomes TRAPPIST-1b, c, d, e, f, g, h — por ordem crescente de distância à sua estrela — têm tamanhos semelhantes à Terra.

Diminuições na emissão da luz estelar causados por cada um dos sete planetas ao passarem em frente à estrela — os chamados trânsitos — permitiram aos astrônomos retirar informação sobre os seus tamanhos, composições  e órbitas. Os pesquisadores descobriram que pelo menos os seis planetas mais internos são comparáveis à Terra em termos de tamanho e temperatura.

O autor principal Michaël Gillon do Instituto STAR da Universidade de Liège, Bélgica, está muito contente com os resultados: “Trata-se de um sistema planetário extraordinário — não apenas por termos encontrado tantos planetas mas porque todos eles são surpreendentemente parecidos com a Terra em termos de tamanho!”

Com apenas 8% da massa do Sol, TRAPPIST-1 é muito pequena em termos estelares — apenas um pouco maior que o planeta Júpiter — e por isso apesar de se encontrar próxima a nós na constelação de Aquário, é muito fraca. Os astrônomos esperavam que tais estrelas anãs pudessem conter muitos planetas do tamanho da Terra em órbitas apertadas, o que as tornam alvos interessantes para a busca de vida extraterrestre, no entanto a TRAPPIST-1 é o primeiro sistema deste tipo a ser encontrado.

O co-autor Amaury Triaud explica: “A energia emitida por estrelas anãs como TRAPPIST-1 é muito menor do que a liberada pelo nosso Sol e por isso os planetas têm que ocupar órbitas muito mais próximas da estrela do que as que observamos no Sistema Solar para poderem ter água na superfície. Felizmente, parece que este tipo de configuração compacta é exatamente o que observamos em torno de TRAPPIST-1!”

A equipe determinou que todos os planetas no sistema são semelhantes à Terra e a Vênus em termos de tamanho, ou ligeiramente menores. As medições de densidade sugerem que pelo menos os seis planetas mais internos têm provavelmente uma composição rochosa.

As órbitas dos planetas não são muito maiores que as apresentadas pelo sistema de satélites galileanos situado em torno de Júpiter, sendo muito menores que a órbita de Mercúrio no Sistema Solar. No entanto, o pequeno tamanho da TRAPPIST-1 assim como a sua temperatura baixa significam que a emissão de energia dirigida aos seus planetas é semelhante à recebida pelos planetas internos do nosso Sistema Solar; os planetas TRAPPIST-1c, d, f recebem quantidades de energia comparáveis às que os planetas Vênus, Terra e Marte, respectivamente, recebem do Sol.

Os sete planetas descobertos neste sistema estelar podem potencialmente conter água líquida em sua superfície, apesar das distâncias orbitais tornarem alguns candidatos mais prováveis a esta condição do que outros. Os modelos climáticos sugerem que os planetas mais internos, TRAPPIST-1b, c, d, são provavelmente muito quentes para possuírem água líquida, exceto talvez numa pequena fração das suas superfícies. A distância orbital do planeta mais exterior do sistema, TRAPPIST-1h, ainda não foi confirmada, embora este objeto pareça encontrar-se muito afastado e frio para poder conter água líquida — assumindo que não ocorrem nenhuns processos de aquecimento alternativos. No entanto, os planetas TRAPPIST-1e, f, g representam o “santo graal” para os astrônomos que procuram planetas, uma vez que orbitam na zona habitável da estrela e poderão conter oceanos de água em suas superfícies.

Estas novas descobertas fazem do sistema TRAPPIST-1 um alvo muito importante para um futuro estudo. O Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA já está sendo utilizado para procurar atmosferas em torno destes planetas e o membro da equipe Emmanuël Jehin está entusiasmado com as perspectivas futuras:”Com a próxima geração de telescópios, como o European Extremely Large Telescope do ESO e o Telescópio Espacial James Webb da NASA/ESA/CSA, vamos muito rapidamente poder procurar água e talvez até evidências de vida nestes mundos.”

O que é o Transtorno Obsessivo-Compulsivo?

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Sam Harris

Por Joel Frohlich
Publicado na Knowing Neurons

Nossos pensamentos são muitas vezes um mistério para nós. Você provavelmente não sabe por qual motivo pensa do nada em um lagarto enquanto está preso no trânsito ou então no filme Cidadão Kane enquanto faz compras no supermercado.

Momentos como estes nos fazem lembrar que nós somos a propriedade emergente de um órgão incrivelmente complexo que nunca pára de nos surpreender. Entretanto, nos sentimos em controle de nossos pensamentos. Mesmo com um pensamento inesperado ocasional, a vida continua sem maiores problemas.

Contudo, isso não é tão simples para pessoas com transtorno obsessivo compulsivo, ou TOC. Usado informalmente, “obsessivo-compulsivo” é frequentemente uma gíria para perfeccionismo ou atenção meticulosa a detalhes. Seriam pessoas com TOC simplesmente meticulosos perfeccionistas? Como transtorno psiquiátrico, o TOC é somente diagnosticado se as obsessões e compulsões de uma pessoa interferem consideravelmente com sua vida diária. Obsessões são pensamentos intrusivos ou preocupações que a pessoa com TOC muitas vezes sabe que são excessivas ou irracionais, mas mesmo assim as experiência. Compulsões são rituais (manias) que a pessoa se sente obrigada a realizar, muitas vezes para aliviar a angústia provocada pelas obsessões.

Embora os exemplos populares do comportamento do TOC sejam frequentemente extravagantes ou bizarros, as manifestações comuns podem ser mais banais. Contribuindo para a imagem de rituais excêntricos ao TOC, estão as histórias do famoso inventor do século XIX Nikola Tesla, o qual acredita-se que tenha sofrido de TOC. Tesla tinha medos obsessivos de germes, cabelos e objetos redondos, que ele diz ter combatido com rituais idiossincráticos envolvendo o número três, como andar em torno de um bloco três vezes antes de entrar em um edifício ou receber objetos em múltiplos de três. Enquanto pessoas com TOC podem realmente sentir uma necessidade de executar rituais um determinado número de vezes para aliviar suas obsessões, rituais de TOC são frequentemente comportamentos comuns realizados compulsivamente. Por exemplo, embora a lavagem das mãos seja um comportamento saudável, uma pessoa com TOC e um medo obsessivo de germes pode lavar as mãos ao ponto de ficar em carne viva.

Rituais são marcas do TOC na cultura popular, porém algumas pessoas com TOC possuem rituais que são difíceis de observar ou em grande parte internos. Esta forma de TOC é chamado de “TOC primariamente obsessivo“, ou também conhecido como TOC obsessivo puro. Embora a ausência de rituais observáveis ​​possa fazer com que o TOC primariamente obsessivo aparente soar menos grave, é frequentemente uma das formas mais prejudiciais de TOC, uma vez que geralmente envolve preocupações sombrias e dúvidas sobre a própria identidade. Por exemplo, enquanto parada em seu carro em um semáforo, uma pessoa com TOC primariamente obsessivo chamada Sara poderia ver um pedestre atravessando a rua e perguntar a si mesmo “O que aconteceria se o meu pé encostar no pedal do acelerador?” Enquanto outra pessoa poderia simplesmente ignorar este pensamento como sendo apenas um pensamento aleatório que não reflete qualquer intenção real de causar dano, Sara poderia perguntar se ela é um psicopata latente. Sara pode compulsivamente se envolver em um tipo de “verificação mental”, como ir em direção para ver se pensamentos semelhantes voltam a acontecer, ou assistir a filmes de terror para verificar se ela se identifica com o serial killer. Na verdade, essas obsessões do TOC são quase sempre o oposto exato da verdadeira personalidade e comportamento da pessoa. No entanto, Sara pode se sentir desesperada porque ela não pode convencer-se com absoluta certeza de que ela não é uma psicopata. Sara e outros também podem estar relutantes em buscar tratamento por medo de que os pensamentos obsessivos sejam confundidos com intenções reais de ferir uma pessoa.

Sam Harris

Sam Harris, escritor e palestrante best-seller que concluiu seu doutorado em Neurociência pela Universidade da Califórnia, Los Angeles em 2009, muitas vezes enfatiza que não somos os autores dos nossos próprios pensamentos. Quando pensamos, não escolhemos conscientemente cada palavra ou imagem que vem à mente, a menos que possamos estar escrevendo cuidadosamente um artigo ou praticando uma nova linguagem. Se conscientemente selecionássemos cada palavra ou imagem, o pensamento e a fala seriam um processo lento e tedioso. Muitas vezes, a razão para um pensamento particular ou uma palavra que vem à mente nos escapa. E, no entanto, a maioria de nós sente um sentimento de autoria sobre nossos pensamentos, mesmo que essa autoria seja uma ilusão, uma explicação pós-fato para a razão pela qual o pensamento ocorreu. Por que, então, as pessoas com TOC experimentam alguns pensamentos como intrusivos? O que causa os pensamentos que não podem ser permitidos ou aceitos, mas em vez disso causam tal desconforto profundo? O que acontece no cérebro de uma pessoa com TOC?

Uma região do cérebro comumente associada ao TOC são os gânglios basais. Os gânglios basais são uma coleção de estruturas debaixo do córtex, a maior parte do cérebro. Como um agente secreto, só observamos os gânglios da base quando o mesmo faz o trabalho errado. Este agente secreto do cérebro facilita comportamentos desejados e impede comportamentos indesejados. De fato, os gânglios basais talvez sejam mais bem compreendidos no contexto de distúrbios de movimento, onde seu funcionamento incorreto provoca movimentos involuntários indesejados. Por exemplo, o hemibalismo é um distúrbio dos gânglios basais, onde uma pessoa involuntariamente executa movimentos incontroláveis ​​dos membros. No hemibalismo, os gânglios basais falham em interagir corretamente com outra região do cérebro, o tálamo. O tálamo envia sinais para o córtex motor, onde os movimentos voluntários são controlados, completando um loop contendo os gânglios da base, tálamo e o córtex. Sem o funcionamento adequado dos gânglios da base, os movimentos voluntários não podem ser adequadamente iniciados ou interrompidos.

Então, o que os gânglios da base têm a ver com obsessões e compulsões? Além do córtex motor, os gânglios da base e tálamo também formam vários laços com o córtex pré-frontal. Como o córtex pré-frontal está envolvido no planejamento, no pensamento e na conscientização, é possível que os gânglios da base também sejam responsáveis por facilitar pensamentos desejados e impedir pensamentos indesejados. Nesse modo, o TOC é uma espécie de hemibalismo cognitivo em que, em vez de movimentos involuntários, a pessoa experimenta pensamentos indesejados. Como evidência desta teoria, as correlações entre a atividade cerebral cortical e a atividade do cérebro dos gânglios basais são diferentes entre pessoas com TOC e indivíduos saudáveis. Além disso, os sintomas do TOC também podem ser melhorados nos seres humanos, estimulando uma parte dos gânglios da base chamados de núcleo subtalâmico. De fato, tanto a gravidade dos sintomas como a sua melhoria com a estimulação referem-se ao disparo neuronal no núcleo subtalâmico.

Um teste adicional da hipótese acima seria utilizar a neuro-imagem para comparar a atividade dos gânglios basais em pessoas com TOC e pessoas com uma desordem relacionada, transtorno de personalidade obsessivo-compulsivo ou TPOC.

Embora pessoas com TPOC e TOC tenham obsessões e compulsões que interferem na vida diária, uma pessoa com TPOC não experimenta esses pensamentos e rituais como intrusivos, mas sim como parte de sua personalidade, sugerindo diferentes papéis para os gânglios da base em cada transtorno.

Enquanto nós preferimos pensar que estamos no controle de nossos pensamentos e comportamentos, um agente secreto em nosso cérebro está puxando as cordas nos bastidores. Os comentários de Sam Harris de que não podemos controlar nossos pensamentos foram feitos no contexto de seu argumento de que nenhum de nós possui livre arbítrio.

Vendo o cérebro como um computador biológico, Harris está certo. No entanto, há também interpretações como a do filósofo e cientista cognitivo Daniel Dennett onde usa o termo livre arbítrio “digno de querer”, o conforto que sentimos quando nossos pensamentos e ações concordam com nosso senso de identidade e agente. Pessoas com TOC não podem obter essa harmonia sem ajuda externa. Através do estudo do cérebro, oferecemos a estes indivíduos uma esperança de que os tratamentos possam estar ao seu alcance.

Referências:

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David McGinn. “Sam Harris on Free Will (Joe Rogan Experience #543).” Online video clip. YouTube. Youtube, September 5, 2014. Web. January 31, 2017. https://youtu.be/aAnlBW5INYg

Hyman, Bruce and Troy DeFrene. Coping with OCD. 2008. New Harbinger Publications.

Sakai, Y., Narumoto, J., Nishida, S., Nakamae, T., Yamada, K., Nishimura, T., & Fukui, K. (2011). Corticostriatal functional connectivity in non-medicated patients with obsessive-compulsive disorder. European Psychiatry, 26(7), 463-469

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