O guia de bolso para prevenção de besteiras

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Crédito da Imagem: Aitap.

Por Michelle Nijhuis.

Estou muitas vezes errada. Entendo errado; Lembro errado; Acredito em coisas que não deveria. Sou excessivamente otimista sobre a qualidade futura da série Downton Abbey, e inexata nas minhas recordações sobre travessuras de astros do rock. Mas não acontece muitas vezes – bate na madeira – de eu estar errada publicamente, e isso é porque, como jornalista, tenho feito treinamento avançado no Protocolo de Prevenção de Besteiras (PPB).

Ultimamente, como tenho visto amigos mais inteligentes e bem-vestidos acreditando em todo tipo de absurdo na internet, tenho apreciado a minha familiaridade com o PPB. Especialmente porque todos somos divulgadores agora. (Compartilhar uma notícia com 900 amigos no Facebook não é falar. É divulgar.) E divulgar besteira é extremamente destrutivo: isso torna mais difícil para o resto de nós fazer a distinção entre notícia falsa e algo real, terrível e urgente.

Apesar do PPB não ser à prova de falhas, gerações de jornalistas excêntricos, mal pagos e amantes da verdade descobriram que ele reduz drasticamente as chances de alguém publicar besteira.

Então, acredito que todos deveriam praticar o PPB antes de divulgar. Não é exigida nenhuma experiência prévia: embora seja possível passar uma vida inteira debatendo os pontos mais sutis do PPB (e o extremamente necessário movimento pela alfabetização em notícias quer que estudantes universitários e do ensino médio passem pelo menos um semestre fazendo isso) seus princípios gerais, listados de forma acessível, portátil e grátis – gratis! – abaixo, são simples.

Veja como eles funcionam na prática.

01 – Quem está me dizendo isso?

Mais especificamente, quem está escrevendo isso e para qual publicação? Qual a credibilidade dessa publicação? Quais são os seus possíveis vieses? Considere um pedaço de merda que circulou na internet no início deste ano: o jornal britânico Daily Mail publicou uma foto impressionante de um nascer do sol projetado em uma tela ao ar livre. O artigo que a acompanha, de James Nye, tinha a manchete “China começa a televisionar o nascer do sol em telas de TV gigantes porque Pequim está muito nublada pela poluição”. Digamos que você não está familiarizado com o Daily Mail. Uma rápida olhada em suas outras manchetes (“O que o seu cocô diz sobre você?”, “Homem é preso após passear pelado no Wal-Mart”) lhe dirá que ele pode ser educadamente descrito como uma arapuca. É seguro supor, para fins do PPB, que ele está mais interessado em tráfego de visitantes do que em precisão.

02 – Como é que ele ou ela sabe disso?

Uma busca por James Nye no Google mostra que ele tem base no Brooklyn. Hmm. Então é provável que ele não tenha visto as tais telas de TV em primeira mão. Sim, há uma foto com o artigo, mas não sabemos onde ela foi tirada, o que está acontecendo além do enquadramento e se a manchete descreve com precisão o que a foto mostra. Estamos dependendo do repórter para confirmar isso, e parece que ele não estava lá. (A pesquisa por Nye no Google também mostra uma publicação no blog do Poynter Institute – um observatório de notícias escrupulosas – que o acusa de forjar a cena de um tribunal em um artigo no Daily Mail sobre o julgamento de um assassinato Geórgia.)

03 – Considerando o nº1 e o nº2, é possível que ela ou ele esteja errado?

Ou mentindo? Nye está escrevendo para um jornal que preza a viralidade, e não parece que ele esteve em qualquer lugar perto de Pequim quando escreveu o artigo. Sim.

04 – Se a resposta ao nº3 é “sim”, encontre outra fonte independente.

Ok, bem, o Time e a CBS News também utilizaram essa história. Ambos baseiam a suas reputações na precisão, então eles têm interesse em preservá-la – em outras palavras, eles provavelmente são mais confiáveis que o Daily Mail. Mas as publicações no Time e na CBS (agora com correções envergonhadas) simplesmente creditam a história ao Daily Mail, sem nenhum sinal de reportagem original. Então eles não são fontes independentes. Eles têm essencialmente a mesma fonte que o Daily Mail. Tente novamente.

05 – Repita até que a resposta ao nº3 seja “improvável pra caramba”.

Se você realmente quisesse saber a verdade aqui, você poderia começar encontrando o fotógrafo – o que pode dar algum trabalho, já que a foto é creditada a uma agência em vez de um indivíduo. Mas, mesmo se ele ou ela confirmasse o contexto da fotografia, não se podia contar com isso – afinal, o fotógrafo também tem interesse na popularidade da história e pode querer protegê-la. Melhor seria encontrar um amigo, ou um amigo de um amigo confiável, que morasse em Pequim e estivesse disposto a dar uma olhada nas telas para você. Mas essa pessoa precisaria fazer mais do que apenas confirmar se as telas existem. Ela teria que confirmar que a imagem estava sendo exibida aos cidadãos por causa da poluição, o que significa que ela provavelmente teria que ser fluente em mandarim e ter contatos suficientes para saber a quem perguntar e onde encontrá-los. Espere. Essa pessoa não está começando a parecer muito com um jornalista?

O que leva ao meu ponto maior. Prevenir besteira é demorado e a verificação minuciosa dos fatos de todo um artigo pode parecer uma forma particularmente estúpida de costurar. Há uma boa razão para que os meus posts no Facebook e no Twitter sejam quase que exclusivamente sobre a minha família e meus amigos, certos programas de TV e artigos escritos por mim e pessoas que conheço e confio. Eu não tenho muito tempo para praticar o PPB de graça, e eu não quero compartilhar besteira.

Então, você poderia tentar perseguir o fotógrafo do outdoor do Sol. Você poderia tentar encontrar um conhecido confiável e prestativo em Pequim. Mas você provavelmente é uma pessoa ocupada e provavelmente não se importa tanto assim com esta história em particular. Então, em vez disso, você poderia ficar bem sentado enquanto a notícia circula e deixar um jornalista profissional verificá-la – ainda temos alguns assim, afinal. Com confiança, o jornalista sediado em Pequim, Paul Bischoff, escrevendo para a publicação ética e consciente na Tech in Asia, logo relatou que a história do Daily Mail era uma furada. A tela da TV na foto está localizada em Pequim, mas está exibindo um comercial de turismo que inclui uma série de imagens em transição. Uma das quais é um nascer do Sol. Bischoff reclamou:

“Sim, Pequim está poluída, assim como também temos criticado na Tech in Asia, mas esta história é uma besteira completa. A mídia internacional deveria estar envergonhada por não ter nem tirado um tempo para desconfiar do Daily Mail, uma das fontes de notícias menos conceituadas do Reino Unido.”

Ufa, que bom que o PPB te impediu de compartilhar esse aí, não é?

Obrigado por ler, e parabéns. Você agora está qualificado para praticar o Protocolo de Prevenção de Besteiras e, assim, defender a verdade e a justiça em toda a internet. Gostaria de dizer-lhe que a sua capa está no correio. Mas isso seria uma besteira.


Artigo publicado na The Last Word On Nothing traduzido por Leon Monteiro Sampaio.

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Graduando em Filosofia (2014) pela Universidade de Franca (UNIFRAN); estágio de iniciação científica em Microbiologia com enfoque em Astrobiologia (2016) pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP); estudante da disciplina de Filosofia da Mecânica Quântica de pós-graduação (2016) pela Universidade de São Paulo (USP); experiência na área de Divulgação Científica com enfoque em Ciências Planetárias (Astronomia e Astrobiologia) e em Ciências Cognitivas (Neurociência e Psicologia); fundador da Organização Universo Racionalista (UR); colaborador do Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade (IERFH); membro-estudante da Rede Brasileira de Astrobiologia (RBA). Tem interesse nas áreas de Astronomia, Astrobiologia, Biologia Evolutiva, Física, Filosofia da Ciência, História da Ciência, Microbiologia, Neurociência, Psicobiologia e Sociologia da Ciência. Abaixo, segue o endereço do currículo na plataforma Lattes.

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1 Comentário em "O guia de bolso para prevenção de besteiras"

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Vanessa Gomes
Visitante

Esse artigo foi muito útil. Temos muita informações inválidas circulando na internet, ultimamente um site que publica notícias falsas divulgou a notícia de que uma “bolsa prostituição” teria sido aprovada, onde um valor absurdo seria concedido às pessoas dessa área para cuidarem do corpo, etc. Vi muitos professores usarem dessa notícia para mostrar “onde o Brasil chegou”, realmente nosso país está longe de ser um país de primeiro mundo, mas para argumentar os argumentos devem ser reais.

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