A mulher que não podia esquecer

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Publicado por Linda Rodriguez no The Guardian
Adaptado por Alejandro Rico

Jill Price não se esquece do dia 8 de junho de 2000. Nem poderia. Jill é uma das 22 pessoas no mundo das quais se tem registro de terem hipertimesia, condição extremamente rara que permite que ela lembre do que estava fazendo num sábado qualquer 30 anos atrás. Como no dia 10 de janeiro de 1981, que Jill lembra ter sido a terceira vez na qual dirigiu um carro.

Nascida em 30 de dezembro de 1965, em Nova York, suas primeiras memórias são de quando tinha um ano e meio. Aos cinco, se mudou para Nova Jersey. Quando tinha sete, o seu pai aceitou uma oferta de trabalho na Califórnia. Então, a família Price passou a viver entre Nova Jersey e a Califórnia. Finalmente, na primavera de 1974, resolveram se estabelecer no estado da Costa Oeste. Jill sempre tinha tido uma boa memória. Mas também uma grande apreensão com mudanças. No primeiro dia de julho de 1974, já em sua nova casa em Los Angeles, sabendo que as coisas não iam ser como antes, se comprometeu a guardar lembranças do mundo que lhe estavam arrancando. Começou a fazer listas, guardar fotografias e ingressos dos eventos que frequentava. Era um esforço para fortalecer a memória. No entanto, funcionou muito melhor do que ela esperava.

Jill foi a primeira pessoa diagnosticada com o que agora é conhecido como memória autobiográfica muito superior, condição que compartilha com cerca de 60 pessoas no mundo. Pode se lembrar da maioria dos dias que já viveu como nós lembramos do passado recente. Se lembra também do dia da semana, o que estava fazendo, com quem… Lembra eventos de 20 anos atrás como se fossem de antes de ontem, porém essas memórias podem vir à tona involuntariamente. Segundo Jill, a sua memória é como uma tela dividida: à esquerda está o presente, à direita um fluxo constante de memórias, desencadeadas por algum estimulo do presente. Ter tantas lembranças, e que estas possam ser provocadas por praticamente tudo que vê ou escuta, pode ser enlouquecedor.

Por isso, naquele dia de junho de 2000 ela resolveu mandar um email para o Dr. James McGaugh, da Universidade da Califórnia em Irvine.

O Dr. McGaugh é uma grande especialista no estudo da memória. Fundador do Centro para a Neurobiologia do Apendizado e da Memória, da Universidade da Califórnia em Irvine (UCI), escreveu mais de 550 artigos e livros, muitos na sua especialidade: como formamos memória de longo prazo. McGaugh começou a estudar o tema nos anos 50. Sua pesquisa se focava em mostrar como as emoções estavam envolvidas no processo de formação da memória. Quanto mais intensas, sejam positivas ou negativas, mais os sistemas neurobiológicos envolvidos asseguram a sua fixação. Basta um leve estímulo para que as glândulas suprarrenais liberem os hormônios do estresse, que, por sua vez, ativam a amígdala. Esta, por sua vez, “avisa” as outras regiões cerebrais que o que aconteceu é importante e digno de ser recordado.

Quando Jill entrou em contato com ele, o Dr. McGaugh avisou que ela devia buscar uma clínica, não um instituto de pesquisa. A resposta de Jill não se fez esperar: “Sempre que eu vejo uma data na televisão (ou qualquer coisa parecida), eu automaticamente volto ao dia e lembro onde estava, o que estava fazendo, em que dia da semana caiu e por aí vai… Isso não para, é incontrolável e totalmente exaustivo. A maioria o considera um dom, mas para mim é um fardo. A minha vida inteira passa por minha cabeça todos os dias e isso me deixa louca!!!”.

Isso deixou o Dr. McGaugh intrigado, então a convidou à sua oficina. Chegando lá, Jill foi submetida a um teste: junto à sua assistente começaram a perguntar para Jill sobre diversas datas históricas presentes num livro chamado “O Século XX dia a dia”. Quando McGaugh perguntou quando tinha ocorrido o sequestro na embaixada americana do Irã, Jill respondeu que foi no dia 4 de novembro de 1979. “Não, não está correto. Foi no dia 5 de novembro”. Como Jill insistiu na resposta, o pesquisador consultou outra fonte. Jill estava certa, o livro errado. As outras respostas foram dadas da mesma forma: rapidamente, com confiança e corretamente. Apesar de décadas estudando a memória, o Dr. McGaugh nunca tinha visto algo assim. Adotou uma posição cética, convocou uma série de especialistas e submeteu Jill a uma série de exames. Um deles consistia em que ela, que é judia, dissesse a data de toda Páscoa desde 1980 até 2003. Jill apenas errou uma data, e por dois dias. Na segunda vez que realizou o teste, não só corrigiu o erro, como deu as mesmas respostas às perguntas de cunho pessoal que lhe fizeram.

Ainda que a capacidade de Jill seja impressionante, quando se trata de lembrar acontecimentos com os quais não se relaciona pessoalmente, a sua memória não é melhor do que a de uma pessoa normal. Ela só se lembrou do que aconteceu no Irã em 1979, porque como fanática por notícias, ela tornou o episódio parte da sua lembrança pessoal daquele dia. A sua “supermemória” não a ajudou em nada na escola, mas ela lembrava muitas curiosidades sobre a televisão das décadas de 60 e 70, os anos pelos quais tem nostalgia. A sua memória é tão seletiva quanto a minha e a sua, ela só é boa mantendo e recuperando certas lembranças.

Não há muita literatura científica sobre esse tipo de memória. Os casos mais conhecidos são aqueles de pessoas que podem memorizar milhares de casas decimais do pi ou lembrar a ordem de cartas embaralhadas aleatoriamente. Porém, esses casos, segundo o consenso científico, são fruto de muita prática, uma habilidade adquirida. Já aqueles que conseguem dizer o dia da semana de qualquer data, mesmo aquelas que não viveram, tendem a ser autistas. Não é o caso de Jill.

Em fevereiro de 2006, o dr. McGaugh publicou no periódico de neuropsicologia Neurocase o primeiro artigo descrevendo a condição de Jill. Em março, um jornal local divulgou o estudo. Logo, a assistente do professor seria contatada por 5 diferentes meios de comunicação interessados em entrevistar Jill. Logo, também começaram a chegar emails de pessoas que acreditavam ter a mesma condição, ou conhecer alguém que tinha. Um dos casos, de um escritor e produtor de TV,  foi confirmado por Elizabeth Parker, neuropsicóloga coautora do estudo. No entanto, em 2012, só havia 6 casos identificados. Até que em 2010 o programa 60 minutes, um dos mais exitosos da história da TV americana, ligou. O encontro dos portadores de hipertimesia conhecidos até então (Jill não participou) foi visto por milhões de telespectadores. Depois do fim da programa, quando o Dr. McGaugh entrou no seu email, tinha 600 mensagens de pessoas que julgavam ter essa condição. A maioria dos casos foi rejeitada, alguns foram convidados a fazer testes na UCI. Mas, como mostra da raridade da hipertimesia, apesar de milhões terem ouvido falar dela, os pesquisadores só identificaram 22 pessoas com essa condição.

Em 2012, um segundo estudo foi publicado no periódico Neurobiology of Learning and Memory. O artigo da pós-graduanda em neuropsicologia Aurora LePort e do neurobiólogo Craig Stark demonstrou que Jill e os outros 10 participantes não só estavam bem colocados numa escala de boa-má memória, mas sim que pertenciam a uma categoria própria. Eram muito melhores que a média ao lembrar de informação autobiográfica de muito tempo atrás: estavam corretos 87% do tempo. Algo comum aos participantes da pesquisa eram os sistemas mentais que, conforme descreviam, melhoravam a recuperação das lembranças ao colocá-las em categorias e ordená-las cronologicamente. Todos também reportavam constantemente repetir mentalmente os acontecimentos, se desafiando a si mesmos a lembrar datas e eventos. A maioria também exibia traços de comportamento obsessivo. Um dos participantes, por exemplo, guardava cada cédula em ordem alfabética do nome da cidade onde estava localizado o órgão emissor. Segundo LePort, haveria uma correlação positiva entre uma melhor memória por parte dos participantes e um comportamento mais obsessivo. O que faria sentido considerando que a repetição é uma das melhores maneiras de fixar informação.

Também se verificou diferenças neurofísicas entre pessoas com hipertimesia e as de memória normal. Tomografias cerebrais revelaram que havia diferenças estruturais em áreas do cérebro associadas à criação de memórias pessoais: aumentos tanto no giro para-hipocampal, ativo durante o armazenamento de memórias emocionais, quanto no fascículo uncinado, que liga o córtex temporal ao frontal transmitindo informação, além de estar envolvido na retenção de memória episódica.

No entanto, essas descobertas não nos explicam os mecanismos por trás da hipertimesia, afinal correlação não implica em causalidade. Os sistemas mentais ajudam os indivíduos a reter as memórias, ou eles precisaram desenvolver esses processos porque podiam preservar todas essas lembranças? Mesmo as diferenças na estrutura cerebral não dão uma reposta fácil: um estudo de 2011, feito com taxistas londrinos revelou que a sua atividade tinha levado à mudanças no hipocampo, região cerebral associada à memória. Não fica claro, portanto, se as diferenças no cérebro dos paciente estudados são causa ou consequência de sua peculiar memória. O fato dos portadores da condição serem tão raros só dificulta chegar a uma conclusão.

Mas há um ponto em comum entre eles e a população em geral: são igualmente vulneráveis às distorções da memória que fazem parte do processo como o conhecemos. Um estudo de 2013 demonstrou que, em comparação a um grupo de pessoas com memória normal, os portadores de hipertimesia eram tão propensos a criarem falsas memórias como o grupo de controle. Os mecanismos de reconstrução da memória dependem, afinal, não só dos pensamentos e sentimentos do momento que se quer recordar, mas também dos presentes quando se dá esse processo.

No entanto, os resultados se encaixam com duas ideias importantes. A primeira é de que o processo inicial de codificação das memórias, quando o cérebro transforma as experiências em lembranças, não parece ser diferente entre os que tem hipertimesia e aqueles que não. Isso foi evidenciado em um estudo de 2016, em que LePort e outros pesquisadores verificaram que tanto os portadores da condição quanto os pacientes normais retinham a informação com a mesma qualidade e na mesma quantidade após uma semana. O que diferenciava as pessoas com hipertimesia das outras era a sua capacidade de, passada essa primeira semana, continuar lembrando e esquecer muito mais lentamente.

A segunda ideia é a de que, não importando o quão bons fossem organizando suas memórias, os portadores da síndrome parecem usar os mesmos recursos, apenas de uma forma mais eficiente. Seja o que for que façam, o segredo parece estar em algo que acontece entre a codificação das memórias e a sua recuperação, no momento em que a consolidação da memória de longo prazo ocorre.

Mais estudos são necessários, no entanto os pesquisadores se deparam com a falta de recursos para a área, que no momento não tem aplicações práticas, num momento em que o financiamento da pesquisa básica não é favorável.

Jill, contudo, espera que algum dia as pesquisas possam levar à cura do Alzheimer ou da demência senil, que é a doença que mais atemoriza os britânicos e americanos, segundo pesquisas de opinião. Afinal, as memórias são, segundo muitos especialistas, aquilo que nos define.

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