Ibn al-Haytham – O Primeiro Cientista

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Traduzido por Riis Rhavia Assis Bachega

Ao aprender sobre os estudiosos muçulmanos do passado, é fácil de se surpreender com o seu brilho, realizações e contribuições para o mundo moderno. Cada um forneceu um legado duradouro que mudou o mundo em sua época e hoje. Um cientista, em particular, está muito acima do resto. Ele é Ibn al-Haytham, o grande polímata que viveu entre os anos 965-1040.

Ele nasceu na cidade iraquiana de Basra durante o califado abássida. Ele viveu cerca de 100 anos após a criação da Casa da Sabedoria, em Bagdá. Sem dúvida, a cultura de aprendizagem e progresso presente no mundo muçulmano na época tinha um grande impacto sobre ele a partir de uma idade precoce. Ele estudou ciências islâmicas e logo se tornou prefeito da cidade de Basra. Durante este tempo, ele continuou a estudar, com foco em ciências e outras disciplinas empíricas. Sua grande chance, no entanto, viria em outra parte do mundo muçulmano.

Ibn al-Haytham no Egito

Durante seu tempo como prefeito de Basra, o califa fatímida rival no Egito al-Hakim (os fatímidas eram ismaelitas xiitas que rejeitaram o califado dos abássidas sunitas no Iraque) ouviu falar de uma ideia que Ibn al-Haytham teve de represar o rio Nilo. Al-Hakim era um homem de contradições. Embora ele fosse o líder Ismaili, um ramo herético do Xiismo que a maioria dos estudiosos atuais rejeitou completamente, ele abriu seu domínio para qualquer um que pode se beneficia-lo. Al-Hakim convidou Ibn al-Haytham para vir ao Egito para tentar a sua ideia radical para represar o rio Nilo. Depois de viajar pelo Nilo para ver onde uma represa potencial poderia ser construído, ele percebeu que seu plano não poderia entrar em vigor com a tecnologia da época. O que passou a ser um problema: al-Hakim era conhecido por seus atos irracionais e crueis, e agiu loucamente na ocasião. A fim de escapar de algum tipo de punição, Ibn al-Haytham fingiu ser ainda mais insano do que o próprio al-Hakim! Esta ideia ousada salvou de ser executado, mas colocou-o sob prisão domiciliar em Cairo pelo resto da vida de al-Hakim – 10 anos.

Esses 10 anos nem pareciam punição para o cientista brilhante. Durante este tempo, ele conseguiu a paz e tranquilidade que queria para prosseguir a sua pesquisa. Durante este tempo, ele mergulhou no estudo da luz. Ele queria entender o que luz é, como funciona e como os seres humanos vêem objetos. Embora o que ele estudou e descobriu foi verdadeiramente revolucionário, a forma como ele pesquisou foi uma de suas maiores contribuições.

O Método Científico

Hoje, é de entendimento dos estudiosos de ciência de que tudo deve ser comprovado. Você não pode fazer afirmações sobre as teorias científicas com base na suposição sem experimentação. Antes de Ibn al-Haytham, não era o caso. Os filósofos gregos, em sua concepção sobre a ciência, não tinham isso em mente. Os Gregos acreditavam que um fato científico poderia ser descoberto somente com a razão, ou atribuido a ação dos Deuses. Ibn al-Haytham sabia melhor. Ele foi o primeiro cientista da história a insistir que tudo deve ser comprovado através de um determinado método para descobrir novas informações – o método científico.

Livros ocidentais de hoje, geralmente, dão pouca informação sobre a história do método científico. Normalmente, os antigos filósofos gregos são mencionados, seguido pelo trabalho “revolucionário” de Roger Bacon, Galileu Galilei e Isaac Newton. A verdade que é esquecido é que esses estudiosos europeus estava sobre os ombros de Ibn al-Haytham (e outros cientistas muçulmanos). Sem suas idéias sobre provar teorias científicas, podemos ainda estar vivendo em uma época em que a especulação, superstição e mitos não comprovadas são a base da ciência.

O Livro de Ótica

Usando seu método científico revolucionário, Ibn al-Haytham leva aos trancos e barrancos o campo da óptica. Em seu livro, The Book of Optics, ele foi o primeiro a refutar a antiga idéia grega que a luz sai do olho, rebate objetos, e volta para o olho. Ele dedicou-se mais sobre a forma como o olho em si funciona. Usando dissecções e o conhecimento de estudiosos anteriores, ele foi capaz de começar a explicar como a luz entra no olho, é focada, e projetada para a parte de trás do olho.

De forma semelhante, ele é o primeiro a estudar o fenômeno da câmera escura. O conceito de uma câmera escura é simples: uma caixa com um pequeno buraco em um dos lados é capaz de projetar uma imagem de tudo o que está do lado de fora em um lado da caixa no interior. Aqueles que estão familiarizados com as câmeras fotográficas modernas, vão notar que esse é o princípio que as rege, com a diferença que elas usam lentes. Ibn al-Haytham foi capaz de construir essas câmeras escuras centenas de anos antes do desenvolvimento moderno da fotografia como a conhecemos. Ele também estudou a forma como a luz é afetada quando se desloca através de um meio, tais como água ou gases. A partir daí, ele foi capaz de explicar por que o céu muda de cor no crepúsculo (raios solares atingem a atmosfera em um ângulo, causando refração). A partir daí, ele foi capaz de calcular a profundidade da atmosfera da Terra, mil anos antes do que seria comprovada por voo espacial.

A tradução do The Book of Optics teve um enorme impacto na Europa. A partir dele, os estudiosos europeus posteriores foram capazes de construir os mesmos dispositivos como ele fez, e compreender como a luz funciona. A partir daí, foram desenvolvidos coisas importantes como óculos, lupas, telescópios e câmeras.

O funcionamento básico da câmera escura.
O funcionamento básico da câmera escura.

Além da Luz

Além de revolucionar a forma como a humanidade entende a luz e desenvolver ferramentas sem as quais não poderiamos viver no século XXI, Ibn al-Haytham foi pioneiro em outros campos.

Entre os anos de 1020 e 1030, ele escreveu vários livros sobre astronomia. Ele escreveu sobre os erros do modelo ptolomaico de como as estrelas e os planetas se movem e proporcionou uma visão mais realista de como o universo funciona (embora soubesse que a Terra é uma esfera, ele acreditava na antiga idéia grega que a terra era o centro do universo).

Ele refutou completamente a astrologia como uma disciplina científica. Continuando com as sua firme convicção de que ideias científicas necessitam ser provada, ele chegou à conclusão de que as idéias de astrologia não foram enraizadas em qualquer tipo de ciência, mas nos pensamentos e sentimentos de astrólogos. Ele também observou que a astrologia contradiz diretamente uma das principais ideias do Islã – que Deus é a causa de todas as coisas, e não corpos astronômicos.

Ele teve uma grande influência sobre Isaac Newton, que estava ciente das obras de Ibn al-Haytham. Ele estudou a base de cálculo, que mais tarde daria origem às fórmulas de engenharia e métodos utilizados hoje. Ele também escreveu sobre as leis que regem o movimento dos corpos (mais tarde conhecido como 3 leis do movimento de Newton) e a atração entre dois corpos – gravidade. Não era, de fato, a maçã que caiu da árvore que dissea Newton sobre a gravidade, mas os livros de Ibn al-Haytham.

Desde que ele foi treinado também nas ciências islâmicas tradicionais, ele também escreveu sobre como usar os métodos empíricos para refutar um falso profeta, e como usar a matemática para calcular como se deve orar em direção a Meca.

Como um precursor da psicologia moderna, ele pesquisou como a musicoterapia pode ter efeito sobre os seres humanos e animais.

Legado

A lista de realizações e contribuições de Ibn al-Haytham continua e continua. A coisa realmente incrível é que ele escreveu mais de 200 livros, mas apenas cerca de 50 sobreviveram até hoje. O que ele descobriu provavelmente supera até mesmo as obras incríveis que chegaram até os dias atuais.

Infelizmente, suas contribuições têm sido negligenciadas desde sua morte. Embora ele nunca foi alguém que cuidava da fama e prestígio que veio a ser um grande estudioso, o desconhecimento atual a cerca de suas contribuições é inquietante. Quando seus livros foram traduzidos para o latim nas terras muçulmanas espanholas, ele não foi referido por seu nome, mas sim como “Alhazen”. A prática de latinizar os nomes dos grandes estudiosos muçulmanos era comum no Renascimento europeu, como um meio para desacreditar os muçulmanos e apagar as suas contribuições para a Europa cristã.

Independentemente disso, sua mente brilhante inspirou inúmeros outros que se apoiaram em seus ombros. Não é um exagero dizer que, sem a sua investigação, o mundo moderno da ciência que conhecemos hoje não existiria.

Ibn al-Haytham exerceu influência na construção das ideias de Newton.
Ibn al-Haytham exerceu influência na construção das ideias de Newton.

Ibn al-Haytham foi destaque no episódio 4 da série “Cosmos: uma odisseia no espaço-tempo” intitulado “Escondido na Luz”.

Fontes:

Morgan, M. (2007). Lost History. Washington D.C. : National Geographic Society.

Masood, E. (2006). Science and Islam. Icon Books.

“Ibn al-Haytham.” The Columbia Encyclopedia, 6th ed.. 2012. Retrieved October 01, 2012 from Encyclopedia.com:http://www.encyclopedia.com/doc/1E1-IbnalHay.html

Steffens, B. (2007). Ibn al-Haytham : first scientist. Greensboro, N.C. : Morgan Reynolds Pub.

Traduzido de http://lostislamichistory.com/ibn-al-haytham-the-first-scientist/

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11 Comentários em "Ibn al-Haytham – O Primeiro Cientista"

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Alcantara Dias
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a cultura muçulmana e´barbara, e o legado que ela traz e´o da destruiçao e subjugaçao, legada esse que ainda praticam nos dias atuais. Nao adianta tentar distorcer a verdade, basta estudar, e muito. E quem lançou de fato os fundamentos do método científico moderno foi René Descartes. Ponto.

Ana
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A cultura cristã também é e sempre será bárbara. A história não me deixa mentir.

Denys Victor
Visitante

Olá, gostei muito do que eu acabei de ler, mas algo me chamou a atenção. No texto, muitas vezes você coloca o islã em destaque, fazendo com que o texto tenha o foco na religião e não no cientista.

Felipe
Visitante

Fala bastante sobre ele nesse Doc https://www.youtube.com/watch?v=a9PpzoSQgCQ

Harquimedes Ceridório
Visitante

Me explica uma coisa: como ele pode ser considerado o primeiro cientista,
se ele viveu mais de 1000 anos após a criação do primeiro Instituto de
Pesquisas da história, fundado em Alexandria por volta de 300 a. c.?
Onde trabalharam as melhores mentes do mundo antigo, como Hiparco,
astrônomo que mapeou as constelações; Euclides que sistematizou a
geometria; Dionísio, que fez pela linguagem o que Euclides fez pela
geometria; Hierófilo fisiologista que identificou o cérebro como o
centro da inteligência; Arquimedes, Ptolomeu, Eratóstenes, dentre
outros.

Herick
Visitante

como já escrito no texto, ele foi o primeiro a aplicar o método ciêntifico como o conhecemos hoje.

José Frajtag
Visitante

Então ele foi o primeiro cientista a fazer assim, e não simplesmente o primeiro cientista!

Brazooka
Visitante

Aproveito para dar uma sugestão de leitura (que tem ligações com o texto): “O Físico”, de Noah Gordon.
(Aproveitando, este livro possui um grande erro de tradução. O título deveria ser “O Médico” – The Physicist)

Bruce Slajvic
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Physician = Médico.

José Frajtag
Visitante

Um linguista Ulysses Weby garante que na idade média os médicos eram chamados de físicos! Mas eu acho que alem de algo estar correto tem que também parecer correto! Se hoje os médicos são chamados de médicos, o titulo do livro deveria ser O MÉDICO. Além disso no texto interno, em nenhum momento o médico é chamado de físico!

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