Grupo anti-OGM ataca o Aedes do bem

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A Oxitec, uma empresa britânica, vem testando no Brasil uma maneira de controlar a população do Aedes aegypti usando mosquitos machos geneticamente modificados.  A ideia é que esses machos quando soltos se reproduzirão com fêmeas no meio ambiente produzindo crias inviáveis. A técnica usada é a transgenia. Um gene produtor da proteína tTA é inserido no DNA do mosquito. Essa proteína desregula a expressão de outros genes  causando o mau funcionamento do organismo e por fim a morte. Porém o gene produtor da tTA pode ser “desativado” pela presença do antibiótico tetraciclina. Esse detalhe é importante, pois usando tetraciclina é que se garante que os mosquitos transgênicos machos consigam se desenvolver normalmente em laboratório até a soltura. A cria fecundada pelo mosquito transgênico herda o gene da tTA do pai, mas como ela cresce no meio ambiente (e não no laboratório) não é inoculada com tetraciclina e portanto não consegue se desenvolver. Além disso, a fêmea do Aedes geralmente se reproduz somente uma vez, garantindo que se ela o fizer com o macho transgênico toda sua prole será eliminada.
A ideia tem tudo para dar certo. A técnica transgênica é bem estabelecida, a tática ataca especificamente o Aedes sem destruir ou contaminar outros organismos como inseticidas inevitavelmente fazem e o mosquito macho transgênico não pica portanto não transmite doenças. Modelos matemáticos podem ser usados para determinar quantos e onde soltar os mosquitos transgênicos, minimizando o custo e maximizando o impacto. Deveria portanto ter todo o apoio da sociedade, certo?
Errado. A BBC Brasil publicou ontem uma matéria mostrando que um grupo de cientistas e ambientalistas se colocou contra os testes e está tentando barrar a ideia. Quem são e quais são seus argumentos?

Eloah Margoni

Apresentada pela reportagem como vice-presidente da Sociedade para a Defesa do Meio Ambiente de Piracicaba, Eloah tem o seguinte a dizer:
Queremos saber a eficácia antes de a prefeitura ampliar o programa. O mosquito é uma nova espécie. A transgenia está fazendo em laboratório o que a natureza levou milhares de anos para fazer. E o desenvolvimento é de uma empresa privada, que tem interesse em vender. Mas, se der errado, não tem volta.
E como vamos saber a eficácia antes de testar? A própria reportagem mostra que a empresa está liberando os dados mensalmente como foi acordado com a prefeitura de Piracicaba. O mosquito transgênico não é uma nova espécie e o resto do argumento é simplesmente puro alarmismo.
Uma busca no google revela mais sobre o ponto de vista de Eloah. Em Abril de 2015 o blog do Almstaden publicou um manifesto da Sociedade para Defesa do Meio Ambiente de Piracicaba (que não parece ter website próprio) assinado por Eloah na condição de vice-presidente, contra a estratégia do mosquito transgênico. O mesmo tom alarmista é empregado, dessa vez contra todos os tipos de transgênicos:
O vírus poderá adaptar-se, e possivelmente o fará, a outros mosquitos; até mesmo ao comum Culex fatigans? Não se sabe… Afinal, a Febre Amarela, doença grave causada por um flavivirus, aliás parente da dengue, tem como seu vetor alternativo o Haemagogus janthinomys, além do Aedes. […]
Em relação à segurança do mosquito transgênico para o ambiente e para a população, assim como o das plantas transgênicas, nenhum órgão poderá jamais garanti-la. Ou melhor, tal segurança de fato não existe. Nenhum organismo “oficial” pode afiançar isso, porque se está fazendo aleatória e laboratorialmente o que a natureza demorou milênios para fazer. Não temos conhecimento para tanto, certamente. Ao contrário, já possuímos sim informações suficientes para temer bastante que surpresa negativa, em termos de desequilíbrios ambientais e patologias humanas, nos aguarde.
Esse é um argumento clássico dos movimentos contra os transgênicos, e é baseado simplesmente no medo. É verdade que não se pode garantir segurança absoluta, mas não se garante isso com nenhuma tecnologia e nem mesmo com alimentos considerados “naturais”. É impossível provar cientificamente que nenhum risco pode surgir da ingestão de, por exemplo, cenoura ou qualquer outro alimento. Alguém pode ter uma reação alérgica ainda não conhecida a cenoura, ou o consumo de cenoura pode um dia ainda vir a ser associado ao aumento do risco de algum câncer. O que se pode fazer, de fato é o que se faz, é testar novas tecnologias contra riscos dos quais temos razões suficientes para temer. Se inventássemos um novo tipo de avião, iríamos testá-lo contra o risco de queda, de incêndio ou de tempestades elétricas mas não contra o risco de ser atingido por raios gama oriundos da explosão de uma supernova a menos de 30 anos luz de distância da Terra, o que embora possível não temos razão nenhuma para crer que seja provável.

José Maria Gusman Ferraz

“A população não pode ser cobaia”, critica o biólogo José Maria Ferraz, conselheiro da CTNBio à época em que o órgão inicialmente examinou o OX513A. “Não somos contra modificações genéticas. Somos contra a forma apressada como a liberação foi feita”, diz ele, que também assinou a petição enviada ao Ministério Público em Piracicaba.
Ferraz diz não ser contra modificações genéticas, mas essa posição aparentemente moderada não fica evidente em outros posicionamentos seus. Em Abril de 2014 o blog Orgânicos publica uma entrevista com Ferraz que começa com a seguinte apresentação:
Na clínica veterinária da filha de José Maria Gusman Ferraz, em Campinas (SP), não entra ração elaborada com ingredientes transgênicos – sim, já há algumas marcas no País que se propõem a oferecer aos donos de bichos de estimação ração produzida sem grãos geneticamente modificados, principalmente a soja. Não poderia ser diferente, em se tratando do pai que a proprietária da clínica tem.
A entrevista descreve Ferraz como um defensor do “princípio da precaução”:
…ou seja, que antes da liberação comercial desses organismos sejam feitas pesquisas detalhadas e principalmente de longo prazo para verificar sua segurança, sobretudo alimentar e ambiental.
Ferraz parece não estar satisfeito com nada menos que total segurança, o standard impossível que os ativistas contra alimentos geneticamente modificados exigem. Depois de encontrar supostos problemas em um estudo com feijão transgênico da Embrapa, Ferraz demonstra simpatia ao famoso estudo de Séralini, criticado mundialmente por suas enormes falhas metodológicas e finalmente retirado da revista em que tinha sido publicado:
Nenhuma revista científica no mundo aceitaria um trabalho com essa amostragem, mas os cientistas da CTNBio aceitaram. E são os mesmos cientistas que reprovaram, argumentando “deficiência estatística”, o estudo do francês Gilles-Eric Séralini, publicado em 2012 para avaliar os efeitos – desastrosos, com alta incidência de câncer – da alimentação de ratos com milho transgênico. O que se pode dizer é que o conjunto de críticas metodológicas ao estudo de Séralini só ressalta as lacunas e fraquezas científicas com as quais foram liberadas as plantas transgênicas no País, já que nenhuma delas passou por experimentos tão rigorosos quanto os exigidos pelos mesmos membros da CTNBio, ao criticarem o trabalho de Séralini (no site da CTNBio, www.ctnbio.gov.br há o relatório completo sobre a posição da comissão em relação ao trabalho de Séralini). E olha que o estudo de Séralini utilizou 200 ratos, por dois anos.
 Não podia faltar o alarmismo:
Como quase todos os membros da CTNBio trabalham com transgenia, eles acham, acreditam piamente, que se trata de uma tecnologia segura. Nem aventam a hipótese de não ser segura, embora haja inúmeros estudos indicando o contrário.
Onde estão esses estudos? Eles nunca são citados, mas quando pressionados os grupos contra OGM acabam citando Séralini. Por fim, na matéria da BBC Ferraz inverte o ônus da prova ao afirmar que a empresa é quem inverte o ônus da prova:
Fizeram testes no semiárido e agora vieram para a região de Mata Atlântica. O ônus da prova não pode ser invertido. A empresa tem que provar que não haverá problemas, e não dizer que não há evidência dos problemas.
Como vimos antes, só é possível testar contra problemas que julgamos haver evidência de que podem ser realmente problemas. Caso contrário os testes nunca acabariam, o que parece ser justamente o objetivo de Ferraz.

Antônio Inácio Andrioli

Andrioli alega na matéria da BBC que houve pressão por parte da Oxitec na aprovação dos testes. Em seu próprio website Andrioli não faz nenhum esforço em esconder sua ojeriza aos transgênicos. Entre seus posts mais acessados estão “milho transgênico: uma morte lenta e silenciosa”, “Monsanto – verdades e mentiras sobre os transgênicos” e “A liberação de transgênicos no Brasil é inconstitucional”. Andrioli é organizador de um livro intitulado “Transgênicos: As sementes do mal”. Sua lista de artigos, quase todos publicados na Revista Espaço Acadêmico, um periódico informal e não “peer-reviewed” de docentes da Universidade Estadual de Maringá, contém inúmeros textos na mesma linha anti-OGM, além de críticas ao capitalismo e elogios ao marxismo.
Andrioli reproduz a linha politicamente ideológica anti-OGM. Seus proponentes argumentam que o problema são as grandes empresas do agronegócio e sua busca pelo lucro, uma consequência do sistema capitalista, esse sim o grande entrave para o desenvolvimento social. Transgênicos geralmente provém de grandes empresas, praticamente as únicas dispostas a arcar com os custos de desenvolvimento, e essa associação é o suficiente para tornar anti-capitalistas também anti-OGM.
Mas a ideia de que só amantes do capitalismo aprovam os OGM é um engano com consequências ainda piores para os próprios anti-capitalistas. No esforço de defender sua posição ideológica, eles acabam distorcendo as evidências para mostrar que os OGM são nocivos a saúde. Isso acaba desmoronando a credibilidade do movimento. É perfeitamente possível atacar racionalmente o sistema capitalista sem precisar cometer atrocidades contra o método científico. OGMs não são propriedade exclusiva de empresas privadas, muitas estatais como a própria EMBRAPA podem desenvolver (e desenvolvem) seus próprios produtos transgênicos. Há falhas no sistema sim, e algumas das críticas procedem, como a de que os testes geralmente ficam completamente a cargo da empresa interessada. Mas esse problema também não é específico aos OGM; a indústria farmacêutica também acaba produzindo seus próprios testes. Mas o princípio por trás da tecnologia transgênica é cientificamente validado e depois de anos de consumo até agora nenhum problema foi encontrado.

Leonardo Melgarejo

Presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, Melgarejo teme que outro mosquito tome o lugar do Aedes se esse fosse realmente exterminado:
O albopictus já foi o principal fator de transmissão da dengue. E pode voltar. E a natureza ensina que não há vazio. Se um mosquito sai, entra outro. E, o que aconteceria? A empresa criaria um transgênico de outro mosquito para as prefeituras comprarem novamente, num ciclo sem fim?
Note que aqui já se pressupõe a eficácia da estratégia do mosquito transgênico em acabar com o Aedes aegypti. Margoni queria ver provas de que a estratégia funcionaria. Ou seja, o argumento contra os testes vai desde “não vai funcionar” até “se funcionar então haverão consequências desastrosas imprevistas”. Nesses termos é impossível ganhar.
Melgarejo já se pronunciou contra o eucalipto transgênico (“Eucalipto transgênico vai sugar água até que ela acabe”) e o glifosato, alegando não existir evidências conclusivas da segurança ou de que existem evidências de insegurança.

Conclusão

 As críticas aos testes com o mosquito transgênico são as mesmas dos grupos anti-OGM. Se dividem em duas: alarmismo ecológico e oposição política. Ambas injustificadas. Felizmente não parece que o grupo conseguirá barrar a iniciativa, mas ele pode sim extender desnecessariamente o processo. A estratégia do mosquito transgênico tem tudo para dar certo. Seria uma pena se ela acabar esbarrando em atitudes políticas e anti-científicas.

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3 Comentários em "Grupo anti-OGM ataca o Aedes do bem"

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Anderson
Visitante
Anderson
6 meses 15 dias atrás

Parabéns, texto muito completo

Yure
Visitante
Yure
7 meses 15 dias atrás

Ecologicamente falando, pode sim causar impactos ambientais retirar uma espécie. Geneticamente falando, pode sim aparecer novas doenças , talvez menos nocivas, mas ainda não se sabe. Prova disso são as nano partículas carcinogênicas que estão aos milhares por ai. A percolação de moléculas oriundas de medicamentos na agua e suas infinitas mudanças no decorrer do trajeto também ilustram bem como tudo eh instável. Acredito que a preocupação dos ambientalistas seja realmente a população e o meio ambiente.

Paulo Andrade
Visitante
Paulo Andrade
7 meses 16 dias atrás

Parabéns! Seu texto destrincha toda a história e desmascara os autores da pretensa preocupação fundada em evidências. A BBC deu espaço para um, grupo muito mal informado ou mesmo com intenções catastrofistas, coisa que nosso país não precisa, muito menos agora.

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