Aulas de pseudociências nas universidades públicas

A Universidade de Málaga oferece um curso pseudocientífico contra o câncer e vidas passadas.

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Antonio Alcalá afirma levar pessoas para suas vidas passadas mediante hipnose.

O artigo retrata um problema que persiste há tempos nas universidades espanholas. Um leitor do site poderia perguntar: mas por que você está divulgando uma matéria referente a um problema na Espanha?

A resposta, para muitos pode parecer óbvia, é que o Brasil enfrenta o mesmo problema com as pseudociências nas universidades públicas. Em 2013, o Glauber Frota, colunista do Universo Racionalista, reproduziu um artigo do engenheiro e cético Widson Porto Reis, onde retrata a influência da pseudociência nas universidades brasileiras. Na época, foi apontado uma problemática envolvendo um curso de astrologia fornecido pela Universidade de Brasília (UnB). Assim, respondida a questão, saliento a importância de estarmos cientes desses acontecimentos no mundo para evitar que o mesmo problema, seja ou não com enfoque nas mesmas disciplinas, aconteça no Brasil.

Por Manuel Ansede
Publicado na Materia

Medicina antroposófica, bioneuroemoção, medicina chinesa sobre o corpo energético, homeopatia e outras práticas pseudocientíficas, algumas delas consideradas diretamente perigosas práticas charlatânicas, tudo isso será abordado em um curso de verão de uma universidade pública, em Málaga, durante cinco dias, de 18 a 22 de julho.

O curso, um autêntico amontoado de pseudomedicinas, será dirigido por María de Carmen Álvarez, veterinária de 70 anos da Universidade de Málaga, especializada em genética de peixes. O programa do curso insinua uma chamada para abandonar a medicina baseada em evidência. O objetivo é “assumir o controle de nossa saúde e escolher, em cada caso, a partir do conhecimento e não do medo, o caminho a seguir”.

O programa pseudocientífico inclui uma conferência com Antonio Alcalá Malavé, um homem que se apresenta como neurocientista, especialista em oftalmologia. Em junho de 2015, foi realizado na Faculdade de Direito da Universidade de Málaga uma sessão de “hipnose regressiva coletiva” em que dezenas de pessoas, segundo o seu relato, puderam recordar histórias de amor de suas vidas passadas. Em sua consulta em Málaga, Alcalá Malavé cobra 150 euros por uma sessão de uma hora e meia de “neuroreconstrução emocional” e 110 euros por uma “regressão hipnótica para a infância”.

Matilde de Torres Villagrá, que dirige uma consultoria de bioneuroemoção em Málaga, dará outras palestras no curso. A bioneuroemoção, uma marca registrada do psicólogo espanhol Enric Corbera, assegura que as doenças são provocadas por conflitos emocionais. “A minha experiência clínica, que já é muita e tem visto centenas de pessoas com câncer e ainda continuo vendo: dei-me conta, porque sou um grande observador, que as características biológicas de uma célula cancerígena correspondem exatamente as características psicológicas de uma pessoa doente com câncer”, afirmava Corbera em uma conferência no ano passado.

O Colégio Oficial de Psicologia da Catalunha considera que a bioneuroemoção “faz uso de práticas próprias de pseudoterapias alternativas e sua aplicação gera alarme, confusão ou grandes expectativas de cura ou mágica colocando em risco a saúde física ou psíquica dos seguidores”, segundo uma denuncia de janeiro. A bioneuroemoção não tem “nenhuma validez científica dentro dos fóruns clínicos ou hospitalares” e tudo indica que é uma “fraude ou malandragem”, segundo um grupo de psicólogos.

O curso de verão da Universidade de Málaga também oferecerá uma sessão com Ana López Barrasa, que administra “medicina antroposófica” em sua clínica Lukas, em Collado Villalba (Madrid). Esta prática foi desenvolvida na década de 1920 pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner, criador também da agricultura biodinâmica, que assegura que os signos do zodíaco influenciam no crescimento dos espargos. A autodenominada medicina antroposófica defende o uso de visco contra o câncer e aparece na Enciclopédia Cética de Pseudociência, do psicólogo e historiador Michael Shermer.

Entre os professores do curso de verão também se encontra o médico Gonzalo Fernández Quiroga, diretor de Medicina Homeopática da Universidade de Barcelona. A instituição catalã criticou em fevereiro o seu mestre de homeopatia por “falta de base científica”. No entanto, a Universidade de Málaga mantém essa pseudociência em seu curso, embora o próprio Ministério da Saúde da Espanha tenha advertido que “a homeopatia não tem comprovação definitiva de sua eficácia em qualquer indicação ou condição clínica concreta”.

O curso será celebrado no Hospital Real de Misericórdia, em Marbella, com o título “A doença: aliada ou inimiga?”. Sua diretora, catedrática de genética “com 44 anos dedicados a docência e a investigação”, defende a sua pertinência. “É um fórum aberto a discussão e debate. Ninguém está em posse da verdade”.

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