A caracterização da psicologia científica, segundo Mario Bunge

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Enfoque

A psicologia é um campo de conhecimento muito diverso, indo desde a psicologia científica até a anticientífica, e o motivo, em parte, reside no fato de existirem muitos enfoques diferentes dentro desta área. Neste texto veremos brevemente o que é um enfoque e usaremos a psicobiologia como ponto de partida para expôr o enfoque científico na investigação psicológica e, finalmente, veremos como uma psicologia científica é caracterizada.

Em geral, um enfoque (A) pode definir-se como um corpo C de conhecimento preexistente, junto com uma coleção P de problemas (problemática), um conjunto O de objetivos e uma coleção M de métodos (metódica), isto é, a quaterna

A = (C, P, O, M)

Todo componente dessa quaterna deve tomar-se em um tempo dado, de modo que não é um conjunto fixo senão uma coleção que depende do tempo.

Um enfoque pode interpretar-se como um conjunto ordenado, porque realmente procedemos de uma maneira ordenada quando manipulamos coisas ou ideias, inclusive quando tateamos na obscuridade. Na realidade, C se apresenta no primeiro termo porque os problemas não emergem no vazio, senão num corpo de conhecimento anterior, a saber, devido a lacunas nele mesmo, e toda tentativa de resolvê-las utiliza alguns elementos de C. Imediatamente depois se apresenta P, porque é o que queremos resolver sobre a base de C. A maneira de tratar um problema depende do nosso objetivo, que pode ser cognitivo ou prático (isto é, de puro saber ou de ter). Aqui que deve entrar em jogo O. E uma vez eleitos o problema e o objetivo, escolhemos ou inventamos um método para manipular o anterior; aqui que finalmente aparece M.

[…]

Todo enfoque se baseia em um corpo de conhecimento antecedente ou preexistente, e cada um destes corpos de conhecimento inclui um marco filosófico geral ou visão de mundo, que frequentemente é tácito mais que explícito. Por exemplo, […] o enfoque científico pressupõe uma quantidade de princípios relativos a natureza das coisas – a ontologia da ciência –, as maneiras de se obter conhecimento acerca delas – a gnoseologia da ciência – e o comportamento correto do pesquisador (a moralidade da ciência).” (Bunge & Ardila, 2002)

Psicobiologia ou biopsicologia

Vamos esboçar muito resumidamente esse campo de conhecimento para depois vermos como Bunge caracteriza a psicologia científica. Apesar de a biopsicologia ser um campo bastante diverso de pesquisa, geralmente os pesquisadores adotam o mesmo enfoque na investigação, publicam suas pesquisas nos mesmos periódicos e frequentam os mesmos congressos científicos. Algumas de suas principais divisões são a psicologia fisiológica, a psicofarmacologia, a neuropsicologia, a psicofisiologia, a neurociência cognitiva e a psicologia comparada. Vejamos do que se trata cada uma delas:

  1. Psicologia fisiológica: estuda os mecanismos neurais do comportamento lançando mão de métodos cirúrgicos e estimulação elétrica em experimentos controlados, feitos quase sempre em cobaias não humanas. O foco é em geral a pesquisa básica.

  2. Psicofarmacologia: à semelhança da psicologia fisiológica, estuda as mudanças na atividade neural e no comportamento, mas com fármacos ou drogas. É comum que psicólogos fisiológicos também pesquisem nesta área. A pesquisa é tanto básica quanto, principalmente, aplicada e os sujeitos experimentais são na maioria das vezes animais de laboratório, mas também, dentro dos limites éticos, se pesquisa com humanos.

  3. Neuropsicologia: estuda os efeitos psicológicos em humanos que sofreram lesões cerebrais. É comum, em psicologia fisiológica, provocar lesões em cobaias para se estudar as mudanças comportamentais decorrentes, entretanto, em neuropsicologia o estudo é feito a partir de pacientes que tiveram lesões prévias, sejam devidas a acidentes, doenças ou cirurgias. Como o córtex cerebral, por ser a camada mais externa do cérebro, é a área mais facilmente afetável, a neuropsicologia se foca no estudo dessa parte do cérebro. É a área mais aplicada da psicobiologia.

  4. Psicofisiologia: é a área da biopsicologia que estuda a relação entre a atividade fisiológica e os processos psicológicos em humanos. Seus métodos não são invasivos por se tratar de pesquisa com humanos. Um exemplo é o estudo do sono, no qual a atividade cerebral pode ser monitorada via eletroencefalograma em conjunto com o monitoramento de outros indicadores psicofisiológicos, como a tensão muscular e o movimento dos olhos. Grande parte da pesquisa se dedica a entender a fisiologia dos processos psicológicos, como a atenção ou a emoção.

  5. Neurociência cognitiva: estuda as bases neurais da cognição, termo que pode ser entendido como processos intelectuais superiores, como o pensamento, a atenção, a memória além dos processos perceptivos complexos. Os sujeitos experimentais são essencialmente humanos e o principal método é a imagem cerebral funcional enquanto a pessoa executa alguma determinada tarefa cognitiva.

  6. Psicologia comparada: trabalha com a biologia do comportamento, mas não particularmente com os mecanismos neurais. Compara-se o comportamento de espécies diferentes a fim de entender a evolução, a genética e a adaptabilidade do comportamento.

A psicobiologia ou biopsicologia adota uma visão de mundo plenamente científica, o que, resumidamente, quer dizer que parte-se de uma ontologia materialista e de uma gnoseologia realista. Além disso, ela adota a hipótese da identidade psiconeural, a qual diz que os processos mentais são (idênticos a) processos cerebrais de um tipo muito especial, e constrói modelos matemáticos de funções cerebrais. Tem como base a biologia, e esta, por sua vez, pressupõe a química e a física. Ou seja, a psicobiologia está totalmente integrada no sistema de conhecimento científico.

A problemática da biopsicologia constitui-se de todos os fenômenos mentais e do comportamento. Dentre esses, ela trabalha com todos que podem ser abordados cientificamente, inclusive os da natureza da consciência. Alguns exemplos são a origem da lateralidade cerebral, da linguagem, da racionalidade, dos sonhos e do desejo sexual.

Seus objetivos são descrever e explicar o comportamento em termos neurobiológicos. Com efeito, seu objetivo final deve ser a construção de teorias, tanto gerais quanto específicas que sejam capazes de explicar e predizer fatos comportamentais e da mente em termos da biologia.

Esse trabalho hercúleo que a psicobiologia tem pela frente é encarado utilizando-se o método científico. Por ter como pressuposto a hipótese da identidade psiconeural e através de técnicas modernas, como a ressonância magnética funcional, a biopsicologia está apta a fazer observações de processos mentais de uma maneira mais fidedigna. Ademais, com auxílio da matemática e da experimentação, constrói um campo de conhecimento inteiramente científico. O método experimental é largamente usado, mas não apenas ele, estudos transversais e longitudinais são frequentemente empregados e também se lança mão de estudos de caso. Para citar um dos mais famosos, o paciente H.M., que sofreu uma remoção bilateral de boa parte do hipocampo e da amígdala, entre outras estruturas, e apresentou problemas de memória, foi acompanhado por mais de cinquenta anos por neuropsicólogos.

Psicologia científica

Retomando a noção de enfoque e a breve descrição desse campo de conhecimento, somadas ao fato de que a psicobiologia adota a visão científica de mundo, ou a atitude científica perante o mundo, o método científico e os objetivos gerais da ciência – descrever, explicar e predizer acontecimentos –, podemos partir para a caracterização da psicologia científica segundo Bunge.

A psicologia científica poderia caracterizar-se com o seguinte décuplo:

Ψ = (Ci, S, D, G, F, C, P, Fc, O, M),

de onde, para qualquer momento dado,

  1. Ci, a comunidade de investigação, é a parte da comunidade psicológica e está constituída por pessoas que tenham recebido formação científica, que possuam sólidos vínculos de informação entre si e que comecem ou continuem uma tradição de investigação científica;

  2. S, é a sociedade (completa, com sua cultura, sua economia e sua organização política) que abriga Ci que estimula, ou, pelo menos, tolera, as atividades dos componentes de Ci;

  3. D, o domínio ou universo de discurso da Ψ, é a coleção de estados comportamentais ou da mente e mudanças nesses estados (eventos) de animais capazes de perceber e aprender;

  4. G, a perspectiva geral ou marco filosófico de referência de Ψ, é composto pelos princípios ontológico-gnoseológicos e morais que orientam o estudo científico de D;

  5. F, o fundo formal da Ψ, é a coleção de teorias lógicas e matemáticas que são ou podem ser utilizadas pelos membros de Ci no estudo dos D;

  6. C, o fundo específico da Ψ, é a coleção de elementos do conhecimento obtidos em outros campos da investigação científica, principalmente a biologia e a ciência social, e que as Ci podem utilizar no estudo dos D;

  7. P, a problemática da Ψ, é a coleção de problemas (reais ou potenciais) que podem investigar os membros de Ci;

  8. Fc, o fundo de conhecimento da Ψ, é a coleção de elementos de conhecimento que utiliza C e obtidos por ela anteriormente;

  9. O é o conjunto de objetivos ou metas dos membros de Ci em relação com seu estudo dos D, a saber, a descrição, explicação e predição de estados e fenômenos mentais e do comportamento;

  10. M, a metódica (não raro, chamada equivocadamente de “metodologia”) da Ψ, é a coleção de métodos utilizáveis pelos membros de Ci no estudo dos D, em particular o método científico e o método experimental.

Ademais, a psicologia científica satisfaz duas condições básicas:

  1. a Ψ tem fortes laços permanentes com outras disciplinas científicas, em particular a matemática, a biologia (principalmente a neurociência) e a ciência social (sobretudo a antropologia e a sociologia);

  2. a pertinência de cada um dos outros oito componentes da Ψ muda, ainda que lentamente, como resultado da investigação da Ψ assim como dos campos afins.

Os três primeiros componentes do décuplo constituem o que poderia denominar-se marco material da psicologia; e os sete últimos, seu marco conceitual. Ao primeiro pode chamar-se assim porque tanto a comunidade de investigação Ci como sua sociedade hospedeira, S, são sistemas concretos (materiais, ainda que não físicos), e o domínio D de fatos de interesse central para os psicólogos é uma coleção de estados de, e de mudanças de estado em, coisas materiais, principalmente certo tipo de animais. Por outro lado, os componentes restantes são conceituais, são ideias, ainda que não, obviamente, ideias vagando livremente. No momento em que uma pessoa inicia o trabalho de investigação em psicologia científica, se converte em membro de Ci e se espera que utilize adequadamente a tradição científica que se lhe confia, assim como que contribua ao enriquecimento da problemática, do fundo de conhecimento ou da metódica da sua ciência.

A comunidade (Ci) é uma comunidade de investigadores científicos, quer dizer, não de crentes, senão de seres que procuram e duvidam. Isto deve sobressair-se em vista da existência de uma quantidade de escolas de psicologia não científica compostas por crentes, celebrantes ou praticantes de corpos de conjecturas não comprovadas ou refutadas, tais como as de Freud e Lacan. Sobre a sociedade hospedeira S, deve-se mencionar porque toda sociedade estimula ou inibe determinado tipo de psicologia. Todos já ouvimos falar de governos que tenham desencorajado a investigação psicológica – por exemplo, mediante drásticos recortes dos pressupostos para investigação – e de outros que tenham tratado de colocá-la sobre o controle da ideologia dominante.

O domínio (D) da Ψ inclui os fenômenos mentais que tem lugar em animais, mas não em mentes desencarnadas, a postulação destas últimas é própria da teologia e da parapsicologia, não da psicologia científica. Este ponto se liga ao componente que se segue, isto é, a perspectiva geral ou filosofia G. […] Contudo, das três filosofias da mente que exerceram maior influência sobre a psicologia – o idealismo, o positivismo e o naturalismo (ou materialismo) – esta última é a que melhor combina com a visão científica de mundo e a que mais tem alimentado o enfoque biológico do comportamento e da mente, a mais geral e promissora. Por estas razões, sustentamos que a filosofia da mente que melhor serve aos interesses do progresso da psicologia é a que postula a identidade de estados mentais e estados cerebrais.

O fundo formal (F) da psicologia de hoje é bastante modesto, e parte do mesmo, a saber, a lógica, muito mais tácita do que explícita. Todavia, também foi assim o fundo formal da física antes de Newton. Não deveríamos colocar limites a F, porque não sabemos que classe de ferramentas matemáticas podem ser úteis aos futuros psicólogos. Apenas recordemos que as matemáticas são uma ciência formal e, portanto, sem amarras com nenhum domínio de fatos, e, por consequência, transportáveis de um campo de conhecimento a outro. Não existe “matemática da psicologia” assim como tampouco existe a da biologia; no máximo, há ramos da matemática que alguns psicólogos (ou biólogos) conhecem e que, deste modo, utilizam para formular hipóteses ou teorias. A princípio, toda a matemática é utilizável pela psicologia. A partir disso, no fundo formal F deveria incluir-se, apenas como medida preventiva, todo o espectro das teorias matemáticas.

O fundo específico (C) da psicologia tem-se expandido rapidamente no curso de nosso século. Os psicólogos têm necessidade de saber cada vez mais biologia, e inclusive química e física; e alguns deles se veem obrigados a valer-se de conhecimentos da ciência social, em particular da antropologia e da sociologia.

A problemática (P) da psicologia também tem-se expandido rapidamente nos últimos tempos. Os psicólogos estudam os animais e as pessoas, exatamente como os zoólogos, porém se dirigem a problemas específicos de seus objetos (por exemplo, como aprendem, ou fracassam na aprendizagem, ou se adaptam a circunstâncias novas). E, o mesmo que os neurocientistas, os psicólogos estudam o sistema nervoso, ainda que não em todas as espécies animais, e sempre com um olho na explicação do comportamento e da mente em termos neurobiológicos.

O fundo de conhecimento (Fc) da psicologia, entretanto, é modesto e inclui elementos da psicologia popular, assim como uma quantidade desconhecida de hipóteses condenadas a resultarem instáveis e falsas. O terreno é difícil, o enfoque científico do mesmo é jovem, os controles experimentais não são sempre fáceis de se estabelecer, as diferenças entre indivíduos são frequentemente consideráveis e, por último, ainda que não menos importante, ainda se faz sentir o peso morto da filosofia pré-científica. Contudo, Fc cresce.

Os objetivos (O) da psicologia básica são os mesmos que os de qualquer outra ciência. Por outro lado, os da psicologia aplicada, em particular a psicologia clínica, a psiquiatria e a psicologia educacional, são mais práticos do que cognitivos.

A porção central da metódica (M) da psicologia é, obviamente, o método científico e, em particular, sua aplicação a investigação empírica, a saber, o método experimental. Note-se que distinguímos entre um e outro, porque a psicologia teórica inclui apenas procedimentos conceituais; ao psicólogo experimental lhe compete submeter à prova as hipóteses e teorias propostas pelo teórico.

À diferença de sua prima não científica, ainda que popular, a psicologia científica interage com outros ramos da ciência. Compartilha suas caraterísticas com todas as outras ciências autênticas. Por outro lado, a psicologia popular e a pseudocientífica são caracteristicamente marginais ao sistema da ciência. Em ciência, a única independência válida é a independência de julgamento: uma disciplina totalmente autônoma, que jamais toma nem pede nada, é, no melhor dos casos, especulação selvagem e inofensiva, e no pior, perigoso curandeirismo.

Por último, à diferença de um corpo de crenças, a psicologia científica está sempre em movimento; e à diferença da ideologia, que evolui – quando evolui – como resultado da luta ou das pressões externas, a psicologia científica evolui como resultado da investigação mesma ou em campos adjuntos, sobretudo a neurociência, a ciência social e a estatística matemática.

Nossa caracterização da psicologia científica abarca seus distintos aspectos e, em consequência, as diferentes maneiras em que se pode considerá-la. Explica o aspecto social: a investigação psicológica não se produz isoladamente, senão em uma comunidade C inserida numa sociedade S. Cobre a tradição desde a qual parte todo investigador: a perspectiva geral G, o fundo formal F, o fundo específico C, e os elementos de conhecimento que o investigador possa tomar do fundo de conhecimento Fc e da metódica M de sua época. Nossa caracterização cobre também a visão que considera a psicologia como um corpo de conhecimento, a sabe, Fc. E inclui a visão da ciência como uma atividade, a saber, que aborda a problemática P com os objetivos O, a metódica M e o conhecimento do marco de referência formado por G, F, C e Fc, assim como em estreito contato com outras ciências.

Havia sido um erro tratar de definir o conceito de psicologia científica (ou qualquer outra ciência) mediante um único aspecto, como tem feito a tradição filosófica. […] Em particular, uma indicação do domínio ou tema D resulta insuficiente, porque toda coleção de elementos pode estudar-se de diversas maneiras, científicas ou não científicas. Tampouco bastaria com uma indicação acerca do fundo de conhecimento, pois o corpo de conhecimento pode ser acolhido com fé e não como trampolim para renovar a investigação, para não falar da impossibilidade de catalogar todas as conquistas da psicologia até o momento. Finalmente, o uso do método científico tampouco constitui uma garantia de cientificidade de um projeto de investigação, pois bem pode ocorrer que se refira a fantasias, ou que seu fundo geral, formal ou específico sejam completamente errôneos. Tivemos que cunhar uma definição, sem dúvida, complexa do conceito de psicologia científica, porque, na realidade, se trata de um objeto bastante complexo.” (Bunge & Ardila, 2002)

Referências

Bunge, M., Ardila, R. (2002), Filosofía de la psicología, México, Siglo XXI

Pinel, J. P. J., (2005), Biopsicologia, Porto Alegre, Artmed

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